17.5.09

Only

Mas, no instante em que com uma força convulsiva eu me pendurei no pescoço dele, algo aconteceu. Fui atingida pelo cheiro, pelo cheiro do corpo do meu marido... Agora preste atenção.

Naquele momento comecei a tremer. Meus joelhos tremeram, senti cólicas, como quando uma doença ruim começa a nos torturar.
Que cheiro ele tinha? Tinha um cheiro mofado de palha. Como anos antes, quando nos separamos. Como na noite em que pela primeira vez me deitei na cama dele e depois vomitei por causa do cheiro masculino nobre, amargo... Porque o homem todo também naquela hora era o mesmo, na carne, nas roupas, no cheiro... que eu tinha visto pela última vez.
Larguei o pescoço dele, enxuguei os olhos com as costas da mão. Estava tonta. Nenhum de nós disse nada. Só então tove coragem de olhar para ele, quando vi no espelho que minha aparência era de novo humana.
Não acreditei nos meus olhos. Quem estava diante de mim, no acesso de Buda à ponte improvisada, junto da fileira que serpeava, interminável, de dezenas e dezenas de milhares de pessoas? Na cidade fumegante, coberta de cinzas, onde era rara a casa em cujas paredes não se via a marca, a cicatriz de balas de fuzil? Onde mal havia uma janela que não estivesse quebrada, não havia carro, polícia, lei, nada?...
Meu marido estava diante de mim. Exatamente o homem que sete anos antes eu ofendera. E, quando compreendeu que eu não seria sua amante e nem sua esposa, mas sua inimiga, certa tarde ele parou na minha frente, sorriu, e em voz baixa disse:
"Acho que seria melhor nos separarmos."
Ele sempre tomava cuidado para dizer com educação algo desagradável ou triste.
Não respondi. Sentei-me educadamente no banco do piloto russo. Em seguida ele tirou um lenço do bolso e limpou as mãos. Ficamos em silêncio por um tempo, nenhum de nós disse nada. Lembro que o sol brilhava. E havia um grande silêncio na praça, entre os aviões, automóveis e ruínas paralisados.
Portanto apenas ficamos sentados diante da caverna de rocha, de frente para a entrada do balneário, e nos olhamos.
Eu o examinei bem, e comecei a tremer. Ele era como um sonho: ao mesmo tempo nevoeiro e realidade.
Assim só se pode sonhar com alguém.
Somente um sonho pode abrigar os acontecimentos de uma forma tão espectral, tão perfeita.
E ele nem estava maltrapilho.


De Verdade, Sándor Márai.