Foi por teus olhos que me apaixonei. Não tenho outra explicação.
Ou melhor, não há outra explicação, em lugar algum.
Seu estilo de se vestir nunca me chamou a atenção, suas conversas, mesmo interessantes, engraçadas, não me marcaram. Seu jeito, mesmo meio tímido, meio charmosinho, inteligente.. não, também não foi isso. O seu cabelo nunca foi dos melhores e mais elogiados, convenhamos.
Mas toda, toda as vezes que eu olhei nos seus olhos, eu perdi a linha do pensamento. As palavras ficavam solta no ar e fugiam da minha mente. A coordenação motora fugia para longe. O mundo? O mundo ao meu redor simplesmente se tornava apenas um borrão. As musicas que eu estava cantando em alguns segundos antes evaporavam da minha memória. As pessoas ao seu redor viravam pó, o vento parava com a sua brisa, o mar parava com as suas ondas, as árvores viravam estátuas ao parar de se movimentar sincronizadamente entre si, as folhas do chão, que apostavam corrida contra o vento, desistiam da luta e paravam. Até mesmo o som não existia ao seu lado. O tempo parava, quando eu encontrava os seus olhos e os seus olhares curiosos parados em mim.
Suas confusões, risos, piadas, brincadeiras, histórias, aventuras, vivências, amizades, sorrisos, corridas, lutas, guerras.. não me lembro disso. De nada disso.
As cartas e as fotografias eu joguei fora, as mensagens eu deletei, os emails que eu havia imprimido, queimei. Literalmente. Minhas histórias e contos que havia escrito naquele tempo, de amor, almas gêmeas e tudo o mais, excluí, joguei tudo fora, rasguei, queimei também.
Porto-retratos foram quebrados, papéis foram queimados, documentos foram deletados, pastas inteiras de mensagens que voce um dia me mandou por email, excluída. O registro das conversas foi excluído e esquecido para sempre, os livros que li com você, ou para você, vendi. Os bilhetes, os papéis de bombons, as entradas de cinema, todos rasgados. E jogados no lixo, triturados.
As lágrimas foram secadas, esquecidas. As noites sem dormir, recuperadas. Novas fotos vieram no lugar das suas. Os presentes? Não faço a mínima idéia. As flores nunca duram para sempre, então já está entendido. Os filmes; devolvidos, vendidos. As lembranças já não passam de um borrão fraco e limitado. Os cds de músicas que você me deu, ou que a gente ouviu juntos, não existem mais. A minha camiseta que você a tinha como preferida, doei. Páginas e páginas que arranquei de cadernos, agendas, livros, cadernetas, blocos, caderninhos, bloquinhos.. Mesmo as folhas em branco, a sua presença estava ali. Joguei fora, queimei, fiz o que eu bem quis. Mas dei um fim, em todas, todas as páginas.
Sua presença já não está mais aqui, nem perto de mim, muito menos comigo. Seu número de celular, já tinha esquecido a muito tempo. Nossas histórias sumiram de minha mente. Sua voz, seu sorriso, seu jeito e trejeitos, esquecidos. Até mesmo as suas páginas em branco desapareceram, junto com tantas outras memórias nossas.
Os seus olhos? Ah, esses jamais me deixaram em paz.