A vontade de acordar hesita, o corpo relaxado prefere continuar deitado. O despertador continua a tocar e tocar.. aí me recordo que dia é hoje. O grande dia. Um ano todo de trabalho, para fazer valer a pena apenas um dia. O melhor dia.
Antes de pensar na noite, tenho que pensar no dia. Até porque minhas obrigações com o penúltimo ano escolar não se encerraram ainda. Ainda.
Cabeça focada nas duas provas do dia, entro com o pé direito na sala de aula.
Professor entra, professor sai.. hora de sair daquele colégio, dia de ir mais cedo para o teatro, começar a mentalizar o acontecimento da noite.
Primeira entrada no palco, todos os grupos se reúnem para informações. O tempo pássa, ensaios vão, ensaios vêm. Chega a hora, experimentar o palco com a tão treinada coreografia.
O grupo sente o palco, os olhos brilham com a sensação de poder comandar uma platéia inteira. E lotada.
Mas era só a ilusão da noite que estava chegando. A música termina, o suor começa a escorrer pelos rostos marcados pelo cansaço, as instruções para o melhoramento são ouvidas e, novamente, o grupo dança, faz a música fluir através de movimentos coordenados. Mais vezes isso se repete, e o tempo se esgota. Agora é hora, a próxima vez no palco é a grande estréia.
Os passos se tornam tensos na rua. A cabeça teima em voltar a sentir tudo o que se passou no palco, treinar o corpo para não haver erros na grande hora. Os olhares se tornam sonhadores, é o final de um ano de trabalho árduo, num sonho coletivo que, para as 20 pessoas mais importantes do meu mundo, vai se realizar.
Os preparativos começam. Olhares atentos, a lista de itens necessários para a noite.
O traço de delineador firme nos olhos. O último toque de blush no rosto. O figurino é posto com cuidado, mas posto com vontade, com nervosismo. O olhar atento, ao mesmo tempo distante, ao amarrar o tênis preferido.
O corpo se recusa a sair do carro, mas prefere ir do que ficar. O encontro com os demais olhos sonhadores e focados, é um alívio.
A tensão aparece. O estômago aperta, o ar parece ficar rarefeito em momentos.. O corpo se recusa a parar, a hiperatividade é constante, em todos os rostos é notável.
O pé direito pisa no palco. As luzes apagadas, a precisão ao se posicionarem. O rosto se concentra, a mente se concentra, os gritos da platéia contagiam. Concentração vai além do esperado, a música começa.
Movimentos precisos e bem treinados se formam e formações antes destreinadas buscam a perfeição no palco. As expressões contagiam a platéia, que se mostra atenta aos movimentos.
A melhor sensação do mundo, o fim da música chegar e você saber que você deu o seu melhor. Cada um por si, acaba sendo um por todos.
A irmandade aparece no fim do momento mais esperado, que foi a estréia, quando as mãos se mostram unidas, os sorrisos se abrem em conjunto e os olhos brilham de satisfação.
Dever cumprido.
A melhor noite, ao lado das melhores pessoas.
Merecia um texto melhor que isso.