"Você não respondeu nada. Os teus olhos, ainda desonrientados, o teu cabelo espalhado ao vento em todas as direções, a tua cara de sono, de menina pequena, respondiam por você - e, caramba, como você ficava bonita assim, sem precisar dizer o que quer que fosse! Apenas olhando em frente, como tinha te visto fazer em todos aqueles dias, no banco ao lado do meu no jipe. Você falava pouco e essa era uma das coisas de que eu gostava em você. Quando tudo era bonito demais ou triste demais, você ficava calada, observando silenciosamente. Falamos sobre isso uma vez, e eu te disse que a vida tinha me ensinado que fácil era o ruído, as conversas sem sentido, a banalidade das palavras ditas sem necessidade alguma. De nós dois, você era, sem dúvida alguma, a mais calma, a mais feliz tranquilamente. A mais atenta, a mais disponível para o vazio e o silêncio. Ah, não ria, eu te observei bem, sei do que falo!"
Miguel Sousa Tavares in No Teu Deserto.