Estranho é voltar após algum tempo.
Relembrar todas as datas de uma gaveta de fotos esquecidas no antigo móvel. Reabrir um antigo registro de acontecimentos. Revisitar sua antiga cidade, ir a lugares que você foi quando criança apenas.
Lembrar das palavras que um dia você feriu alguém, das palavras que te fizeram apaixonar. Das frases não ditas, e dos arrependimentos depois desses momentos que nada se pronunciou.
Dos projetos que um dia você, ainda imaturo, começou, e largou. Voltou a pensar em tais projetos, até os modificou. E os largou novamente agora, recentemente.
Ouvir novamente as músicas que marcaram sua infância, sua adolescência. Reler um antigo bilhete que você recebeu sem remetente. Uma antiga carta de amor, uma antiga carta de despedida, um antigo postal que te fez sorrir ao abrir a caixa de correio.
Estranho é rever algo que não é seu, mas saber que você está ali presente. Nas entrelinhas, atrás das pessoas da fotografia, na visão periférica da memória. Estranho é reler um parágrafo que um dia foi seu e foi ali abandonado. Estranho seria querer que, ao chegar em casa no fim do dia, você ali encontrasse um novo parágrafo.