29.12.10

undone


Nós ouvimos histórias de ninar, histórias de dentistas que nos fazem ter medo pra nossa primeira consulta e histórias na aula de leitura do primeiro ano da escola, ou na primeira ida com a turma da escola à livraria municipal.
Histórias dos nossos primeiros coleguinhas na escola – detalhe para aquele eterno ‘oi, você quer ser meu amigo?’ –, histórias que nos farão rir pro resto das nossas vidas e que, sem dúvida alguma, contaremos à próxima geração. Histórias antes das aulas do soninho e histórias do bicho papão.
Contamos com entusiasmo as histórias de nossas aventuras, onde nós desvendávamos o mundo inteiro, quando não saíamos do nosso próprio jardim.
Depois as diferenças entre meninos e meninas apareciam, ao mesmo tempo que as histórias de paixões (ah, quando tudo era inocente e ingênuo, sem dores ou complicações), dos primeiros selinhos, daquelas promessas de casamento e pedidos de casamentos embaixo da árvore da praça central.. É aí quando vinham as histórias das primeiras vitórias no campeonato de natação, de judô, futebol; o primeiro solo no ballet…
E então ouvimos, por vontade própria, por várias vezes, as histórias dos avós, como o mundo era antigamente.. a história de nossos pais – como é possível imaginar eles jovens? –, a história da separação dos pais do seu amigo ou sua amiga.. Ouvimos e recontamos a história da menina que beijou tal menino, a primeira entre todas.
Conquistamos liberdade contando as histórias da nossa primeira vez ficando a noite inteira acordados, da nossa primeira festa, da nossa primeira vez chegando ao amanhecer em casa, da nossa primeira balada (aquela que a gente mentiu pros pais que ia dormir na casa da amiga, sabe?).
Perdemos o sono relembrando das histórias da noite que o mundo pareceu acabar quando te disseram que estava tudo acabado pela primeira vez na vida, quando tivemos que contar as histórias com final feliz pra nossa amiga que ligou desesperada, porque tinha acontecido com ela também.
O tempo passava enquanto acumulávamos todos esses contos. Se pudéssemos contar quantas histórias já ouvimos até hoje..
Depois vieram aquelas histórias do início da adolescência, as rebeldias em casa e consequentes tentativas de fuga de casa. As histórias do primeiro ano no ensino médio, o quanto o mundo é injusto (é, lá já começavam as reclamações; bendita inocência). Aí vinham as histórias de primeiros namorados, a expectativa quando recebeu o primeiro convite pra jantares a dois.
Histórias de não-volta pra casa, histórias de voltar pra casa com o sapato na mão e sem sentir os pés ainda, de dor e cansaço. Histórias do dia que você passou o tempo inteiro estudando pro exame de física que você não precisou ter estudado tanto, do dia que você finalmente conseguiu ter a oportunidade de fazer o show com a sua banda, e não passar vergonha na frente da menina que você gostava.
As histórias de madrugadas no telefone trovando com ele, que parecia estar interessado em você justamente quando você não queria nada além do que ele no mundo inteiro.. histórias das festas de 15 anos na balada ou no clube da cidade, que as garotas se arrumavam o dia inteiro e tentavam parecer bonitas dançando funk depois de estar 3 horas derretendo embaixo de luzes e cores e sorrisos e olhares.
Contamos histórias do início do ano que parecia que tudo ia nos afundar, que não fazíamos nada a não ser estudar, estudar e estudar.
Histórias de vitórias e derrotas para questões infinitas do maldito vestibular, histórias de sorrisos ao ver uma lista de aprovados. Histórias de falta de memória (qual é o motivo mesmo?), histórias de oktoberfest ou de ano novo..
Histórias que escrevemos, digitamos, falamos, recitamos, contamos, escondemos, mentimos, inventamos e confessamos. Histórias que são escritas e ditas a todos os momentos, histórias que não possuem final algum.
Histórias da infância, adolescência, juventude e maturidade; histórias de uma vida inteira. Histórias que serão esquecidas e histórias que jamais serão reveladas.
Estudamos histórias ao mesmo tempo que escrevemos a nossa própria história. Criamos histórias na aula de redação enquanto ouvimos a história por trás da música que estava em nossas mentes.
Histórias na frente de histórias, histórias por cima de histórias, histórias que deixam de ser história para se tornar o seu presente.
Histórias que são presentes.
Histórias são presentes.
História é presente.