17.2.11

never told

- Oi, te vi ontem, você estava no outro lado da rua que eu tava andando..
- Ah, é mesmo? Que coincidência! E por que não me chamasse? Estou com saudades suas!"
E aí as palavras somem. O relógio para. O pensamento trava. A reação? Que reação? E logo no instante seguinte, a mente começa a trabalhar numa velocidade jamais notificada, são milhões de imagens, lembranças, pensamentos, palavras, tentativas de frases, de explicações, de motivos, de  causas.. ao mesmo tempo.
Porque eu não tive reação alguma ao te ver, como agora. Porque ontem, quando te vi, foi como no primeiro dia, o sol parece ter brilhado mais forte, o mundo ao redor parecia ter sumido, o chão que meus pés caminhavam parecia ter fugido dali, os meus olhos travaram em você, e não saíam mais dali. Quando eu te vi ontem, foi como no dia que você tirou de um precipício que eu tinha em minha frente, você clareou meu dia, você me deu as respostas para as minhas dúvidas, você me fez perder o equilíbrio mesmo com as minhas pernas firmes no chão. Você me fez prender a respiração, perder a voz, perder o rumo, esquecer do meu horário, esquecer que eu tinha bolsas pesadas em mãos, me fez esquecer do meu próprio peso, me fez perder a letra da música que tocava naquele momento, me fez perder os carros que passaram na rua, me fez esquecer de tudo que aconteceu comigo em minha semana, me fez esquecer dos seus amigos que estavam ao seu lado, me fez esquecer do lugar onde eu me encontrava, me fez se quer esquecer da minha respiração. E eu nem sei quanto tempo eu fiquei parada ali.
Mas bastaram aqueles breves momentos em sua (quase) companhia pra relembrar dos tempos que sentávamos lado a lado, sem nada pra fazer, e mesmo assim, o tempo parecia correr contra nós. Me bastou apenas avistar o seu sorriso pra eu sorrir sozinha, alegrar meu dia, tornar meu dia um dos meus melhores, me transformar ali, no meio de uma calçada, atrair olhares curiosos perguntando-se de tamanha alegria estampada em um rosto só. Foi só ver o seu jeito de menino que meu coração disparou, minha lembrança do seu jeito sem graça veio à tona, minha saudade de te ver todos os dias queimou por baixo da minha pele.
E quando me dei conta que era você ali, logo ali, quase ao meu alcance.. Você já tinha passado. Tinha saído de perto de mim novamente, tinha tudo voltado ao seu normal, o mundo voltara a andar e o relógio continuara seu trabalho.
“- É, eu só vi que era você quando você já estava longe. Saudade também.”