21.5.12

suspiro que faz rir

O dia passa mais rápido que o esperado, e sua surpresa quando o Sol se põe novamente no horizonte é transparente. Nada de especial, nada de ímpar, nada de novo. Simplesmente passou; mais um dia. E aí o pensamento que habita sua mente, mesmo que por apenas um momento, é o quão rápido o tempo vai, você fica e, quando tudo parece o mesmo, tudo já mudou. De novo, e de novo, e de novo. Será arrependimento por não estar valorizando o presente? Ai, clichê contemporâneo esse de today is a gift, that`s why it`s called the present. Tão last week, tão monótono, tão clichê. Preciso dar um tempero na minha vida, na minha rotina, nos meus dias; você pensa. Mas então, por onde começar?
O trânsito parecia não colaborar, mas você finalmente se encontra em casa. Banho, geladeira, sofá, televisão. Não, não, chato, já vi esse filme, não, não e não. Você pega um livro, as palavras parecem querer fugir de você. 'Por que nada faz sentido hoje?' é o que te vem à cabeça. Prefiro nem saber a razão; fora uma resposta um tanto quanto retórica. E o entrevistado no canal de agora ainda comete um erro gramatical; ai vida. Você até largou o livro, desligou a tevê, terminou a cerveja e perdeu o rumo pro quarto. Entre suspiros, falta do que fazer, tédio e revolta, você resolve dormir. Até porque amanhã é um novo dia, não é mesmo?
E o que parecia fácil (afinal, é só fechar os olhos e contar carneirinhos, oder?) se transformou numa tarefa impossível. A posição não era a mais confortável, o pensamento não era o mais calmo e a grossura do cobertor incomodava. Nada, nada ajudava. Fez chá, leu mais um capítulo da biografia de um ícone do tempo do feudalismo.. e nada. Esquentou leite (sua avó sempre lhe falou que leite quente ajudava nessas horas), chegou a pensar na possibilidade de reencontrar o volume de Graciliano Ramos lido durante o ensino médio - "não, se eu levantar e for mexer nas prateleiras de livros, aí sim que eu não durmo essa noite"-, ligou a televisão novamente, arrumou o cobertor, encontrou uma posição que parecia realmente ser confortável, fechou os olhos, concentrou-se na própria respiração, não pensou em nada e,.. de novo, nada. Parecia que algo inquietava, uma razão além da mísera consciência, um acontecimento que ainda estava por vir, não sabia, mas era o que parecia.
Resolveu tentar ler novamente, alcançou na cabeceira um de seus volumes preferidos, sabia algumas boas passagens de cor, mas tentar não custava nada. "Não é mais noite nem dia/Não é tristeza nem alegria/Não é ausência de rima" Era tudo que passava (de novo, e de novo, e de novo) em sua mente. É apenas falta de sono, você repetiu. Apenas uma falta de sono. "Eu, insônia. Você, companhia." Você falou baixinho. E tudo fez sentido. No mesmo momento abriu, sem querer, seu livro preferido na página certa, onde encontrou, na mesma linha de sempre, "Esse sentimento é o pior. O de que alguém faz falta. Você olha em torno, não entende. Estende a mão, busca  um copo de água, um livro, com um gesto hesitante. Tudo na vida está no lugar, os objetos, as pessoas, a rotina conhecida, a relação com o mundo não mudou. Somente falta alguma coisa. Você rearranja os móveis do quarto... não era isso? Não" Tudo fazia sentido.
A cama fria, a falta de barulho na cozinha de alguém procurando um copo, a falta de estalos no corredor que antecede o quarto, a ausência de uma respiração calma para dividir o silêncio com você.
Eu, insônia; você, companhia.



Trecho retirado de De Verdade, Sandor Marai.

"E desperta a retina,
Mais atiça a procura
Ao silêncio que inspira