14.8.12

(sem título)

Recebeu um bilhete. Abriu o sorriso, mesmo que inconscientemente. Sabia o remetente, sabia o que dizia; mesmo assim, sentiu o coração bater mais forte, a inconstância boba dos apaixonados. “Vá para trás da casa, no jardim, no horário em que nossas mães estarão resumindo seus dias em palavras cheias de tédio de mais uma reunião. Esperar-te-ei em frente ao balanço (que de balanço, só sobrou uma bossa boba, composta no improviso do coração que pulsou forte...). Estarei com pressa, mas quero ver-te novamente. Com vestido, com teu perfume, com teus lábios doces, com tua serenidade toda.”. Sabia o que lhe esperava ao cair da tarde, queria vê-lo novamente! A expectativa apareceu rapidamente, com tamanha forma e força que quase a fez perder o equilíbrio. Vestido, perfume, sorriso. Os carros na rua eram rápidos, e os ponteiros do relógio em seu pulso teimavam em continuar naquela marcha lenta. Foi caminhando pra vizinhança próxima. Quem sabe ele já estivesse lá, como de costume, à sua espera.

De longe, quebrava a visão quase surrealista que o conjunto das ruas iluminadas na calada da noite compunha. De perto, assustava com os contornos bruscos e, ao mesmo tempo, harmoniosos. Estragava a atmosfera da via na qual se localizava, deixava, ao seu redor, um ar pesado, como que esquecido. Isso! Parecia um cemitério de lembranças esquecidas; por onde todos passavam, sem pressa até, para largar suas lembranças. Para esquecer o esquecível, para encontrar calma dentro da própria cabeça. Antes lar, agora refúgio; refúgio pra perder a noção da hora, pra jogar tudo fora. Visão deplorável, durante madrugadas aparentava ser um monstro renascendo na sombra. As trepadeiras tomavam conta da faixada, as janelas quebradas, a porta de entrada estava permanentemente entreaberta, mas ninguém entendia como um convite de boas vindas. O jardim, há muito abandonado, estava mal cuidado, sem cores, sem flores, sem amores. O balanço do galho da árvore mais alta perdera as forças que suas cordas uma vez tiveram, o banco de enamorados estava tomado pela podridão. Lembrava um coração abandonado, mas pronto para amar novamente. Era um sentimento concreto, mas ainda sem forma, não lapidado. Era a alma de uma casa que esperava, dia após dia, pelo reencontro.

("You know me, I'm impulsive", repetiu baixinho ela, rindo à toa). Já conhecia o caminho até o jardim e sabia que ali não haveria mais ninguém. Não havia mesmo. Estava sozinha, e o Sol começava seu ritual cotidiano de se esconder atrás do horizonte. Ainda que cedo, o dia estava com um peso ímpar. Há tempos não se viam, que alegria! Sempre lhes disseram que os dois se casariam. O tempo passava, e nada os contradizia. Ele voltava agora, depois de tanto tempo longe. Já haviam adotado a casa para si. Sabiam que ali, no jardim daquela casa abandonada, onde se conheceram quando crianças; trocariam juramentos, escutariam o choro das crianças, contariam histórias das goiabeiras pra terceira geração, quando a idade batesse à porta. Sabiam que tudo fazia sentido, tudo tinha sentido, tudo era sentido. Sentimento sem fim

Então chegou. Chegou com tênis surrados, blusa de botão e honras guardadas. Toda a fantasia se esvaiu quando o sorriso não se abriu. Confessou o arrependimento, disse que faltou coragem pra contar, mas não poderia ficar. Com os olhos sambando lágrimas não salgadas, porém amargas, quis ter mais tempo em mãos, quis poder mais, quis poder não usar o futuro do pretérito. Prendeu a voz, e nenhum silêncio já presenciado fora tão mudo. Cru. Nu. Ele nunca soube se despedir, ela nunca gostou de despedidas. O brilho dos olhos dela se perdeu, uma melancolia tomou lugar da malemolência que tinha quando andava. Não quis largá-lo no abraço.
Ele virou de costas;
O moço forte chorou,
A moça fria desabou.
A noite chovia, quando ela gritou.
Não vai! Desaprendi a te prender há tempos, mas fica. Senta, calma, não vai de impulso, não vai sem razão – e sabes que não tens razão! Lágrimas não desfazem erros. Te quero perto, sabes que é pra ser. O que é bom vai aparecer na nossa caixa de correio, o que é ruim permanecerá fora das nossas vidas. Não vês? O sossego ainda continua aqui e em nenhum outro lugar. Fica, pois precisamos viver nessa casa que, desde sempre, foi sempre nossa. Fica com esse teu sorriso que pode iluminar a avenida inteira, não só nossas vidas, pelo resto das nossas vidas! Ficas, pois só você é capaz de tirar o vazio que fica nessa casa abandonada,quando por aqui não estás. A vida é tão simples quanto teu nome, não rasgue a vida que aqui tens para ter a incerteza como companhia. Fica, e não ouse novamente tirar-me de perto desses teus olhos castanhos com uma imensidão sem fim, não ouse ir para longe, e levar minha poesia viva para longe de mim. Ah!, meu bem, fica, pois meu jardim não é bonito sem ti.


http://youtu.be/1GiLxkDK8sI
http://youtu.be/cHptK8k8VkQ

"me conta agora, como hei de partir?"
http://afonsinhoteixeira.blogspot.com.br/