2.5.13

passerby craziness

A cidade suspirava tranquila, sonolenta, enquanto minha ofegante respiração entregava minha inquietude por conforto. Minha busca seguia por entre as vazias ruas da cidade e os ponteiros do relógio pareciam arrastar-se de cansaço. Eu simplesmente necessitava sair dali. Tudo parecia tão assustadoramente familiar que me sufocava. A coincidência que se passava; estar cruzando as mesmas ruas no mesmo horário de quando eu saía de perto de você. O acelerador sentiu minha agonia; nunca antes fora tão forçado. O pensamento ecoava em minha mente e, inconscientemente, fugi para o lugar mais distante de todos.

O frio de meia estação, a fumaça libertadora que me envolvia, o rádio ao fundo que reclamava 'if everything could ever feel this real forever, if anything could ever be this good again...', a cidade iluminada que, ao longe, parecia inofensiva - como a lembrança dele adormecido. Tudo deixava essas memórias longe, ainda que perto demais. A dor era inevitável - não sei porque teimo voltar pra esse lugar enquanto sozinha. Minha cidade nunca mais será apenas minha - ela só fará sentido e me aceitará de braços abertos quando minha outra metade voltar pra onde sempre pertenceu.

Lembro quando, do topo mais alto que parecia ser só nosso, falei pela primeira vez em voz alta; 'já pensou? Cada janela dessas possui uma história diferente'. Pensei nisso todas as vezes que passava pelos prédios universitários que cercavam os trilhos nos arredores da köln süd, pensei nisso inúmeras vezes quando parei de frente para a janela do quarto dele - principalmente de noite. Mas sempre fora um pensamento bastante solitário - sempre perguntei-me se alguém fazia tal pergunta a si mesmo também. Se alguém teve, alguma vez, esse mesmo pensamento do quão pequena sou, uma vez que não sou nada mais que uma janela dessas. Quando ele respondeu, na ocasião, que se perguntava o mesmo, soube, de certeza, he's the one. O cara que eu jamais deveria deixar partir. O cara que me tirou a respiração, o chão, o pensamento, o coração e mais metade de mim.

Essa ideia de sermos mais uma janela tem me tomado bastante tempo nessas últimas semanas. Têm sido semanas um tanto quanto introspectivas. Naquele instante em que você se pergunta sobre tudo que realizou até agora, e se adiantou fazê-las, ou se elas te ajudaram, de alguma forma, a subir mais um degrau para o seu objetivo maior.

Sabe, eu tenho essa mania de querer sempre mais, de ambicionar sempre mais, de nunca contentar-me com o que eu já conquistei - o que eu apelidei de autocrítica. Como agora, por exemplo, meu foco é tornar-me na garota mais legal, mais incrível, mais talentosa, mais interessante que há. Daquelas que se destacam entre a multidão simplesmente pelo jeito que anda, ou se porta, ou como está sempre sorrindo. Tudo isso só pra ser a garota dele. A que ele sempre quis. A que ele merece. A que ele sempre mais admirar. A que nunca o fará hesitar.

E nisso vem a minha outra constante divagação e mania: ler as expressões de estranhos que passam por mim e inventar histórias para elas. Existe um certo.. termômetro na expressão da pessoa; não sei bem explicar. Mas há pessoas que eu simplesmente imagino um nome, e há aquelas a quem eu atribuo uma história de vida inteira.

Mas essa última é um pouco engraçada, o que me torna uma psicótica, de alguma forma. Quase como quando você está parado no trânsito e, ao olhar para carro ao lado, percebe que tem alguém te encarando há muito tempo.

Mas todos esses pensamentos, assim como a fumaça que se dissolveu no ar, se foram. Assim como repentinamente apareceram, partiram sem despedir-se.

Pergunto-me como cheguei até aqui.

Caminhando pelas ruas da cidade, mesmo que seja madrugada, as almas encontram-se vagando por aí, sem rumo certo, assim como eu. Penso que talvez, por esses quarteirões à meia-luz, não seja a única de preto com os pensamentos mais distantes que a outra parte de mim e esperando o tempo passar. Não sou aqui, a única tendo bons dias e dias ruins, ou a única com uma eterna contagem regressiva em mente.

Nos dias de sol e brisa gélida, os contrastes dessa paisagem parecem estar mais bonitos, enquanto que agora só me trazem desconforto e a sensação de vazio.

Como esse rosto preocupado que acaba de passar por mim, sem olhar-me nos olhos, quais serão as sensações que ele sente quando os dias chuvosos amanhecem? Ou a garota tipsy que acabou de tropeçar logo ali, no outro lado da rua, estaria ela acompanhada de seus amigos de infância?

Além disso, todos têm essa pequena loucura que nos habita, e aparece em alguns momentos das nossas vidas. Tive um momento desses ao sair, com um certo pânico, da paisagem que me sufocava para ares mais altos da cidade. Como se eu pudesse assistir tudo de longe, evitando sentir qualquer que fosse o sentimento.
Todos têm essa preocupação, ainda que por apenas um instante, de pensar em um plano alternativo, quando perguntamo-nos aquele ‘e se não der certo?’. Essa preocupação de chegar no horário para o encontro que pode ser com alguém que você vá passar o resto de sua vida, ou atrasar nos dias que nada dá certo pra ninguém.

E todos têm essa rotina – mesmo aqueles que dizem odiá-la – de sempre chegar em casa ao fim do dia e achar sua forma de reconforto preferida (“aquilo que, de alguma forma, te dá força pra levantar da cama no dia seguinte”).

E, ainda que tenhamos uma cultura, educação, ocupação, background, histórias, opiniões e gostos musicais diferentes, ao fim do dia, não somos nada além de mais uma janela acesa – com muita história pra contar – na paisagem borrada e sonolenta.

 

 

o que tocava no rádio
http://youtu.be/anjGYjgIml4
http://youtu.be/FZES6XygviI
http://youtu.be/hSH7fblcGWM

 

hello, stranger
http://afonsinhoteixeira.blogspot.com.br/