Você está em praticamente todas as memórias que eu tenho de minha infância, nas mais claras principalmente. Você aparece em muitas fotos de quando eu era uma criança, nada mais que uma criança. Você foi cedo demais. Cedo demais.
Quando nem havia desconfianças, você se tornou cúmplice. Quando ainda era desconhecido, você se tornou vítima. Quando houve diagnóstico, você já não estava mais saudável. Quando houve tratamento, já era tarde demais.
Frágil, eu lembro do último dia que te vi. Foi o seu último dia. Eu era pequena, mas eu ainda lembro. Lembro que era o meu, o único nome que você recordava. A única palavra que você conseguia lembrar, conseguia pronunciar, era o meu nome. Naquela idade, naquele momento, eu ainda não entendia o que estava acontecendo, o motivo daquilo tudo, a sua falta de memória, o seu estado de saúde.
Mas ainda lembro do seu olhar encantado naquela tarde, os olhos brilhantes que no silêncio me fitavam naquela tarde. Ainda lembro que você, naquela tarde, era uma criança, nada mais que uma criança. Como uma criança tendo o mais doce sonho, você adormeceu de noite. Porém não acordou. Não chamou por alguém, não gritou por causa de um pesadelo, não sentiu dor. Apenas você dormiu sorrindo, e sorrindo estará pra sempre.
Confesso, você me roubou algumas lágrimas hoje, de alegria. De pensar que sim, eu aposto que você está contente aonde estiver, com orgulho de mim hoje. Por mais que eu queria compartilhar todas as minhas histórias, ouvir as suas e ler isso aqui pra você, pessoalmente, sei que você tá melhor aonde está. Ainda acho que o tempo foi injusto com você, mas você será eternamente jovem.
Dona Laura, amo você e morro de saudades. Hoje e sempre.