Eu não sabia exatamente o que fazer, talvez a velocidade dos meus batimentos estivesse escrita em minha testa, ou a minha vontade de ficar olhando no fundo dos teus olhos deixava tudo à mostra, como em uma vitrine na loja mais movimentada da cidade onde moramos desde nossas infâncias. E você continuava ali, contando seus casos e histórias com uma simpaticidade tão enorme que eu me intimidei. Desde o início. Esse seu descaso, essa sua liberdade com as palavras. Desde o início.
Então você me pergunta das minhas histórias. Quem sou eu, por onde já passei, quem deixou alguma cicatriz em mim. E aí falei. Simplesmente fui falando; sem seguir roteiros, falas prontas ou então ensaiadas. Rediji um rascunho só pra ti e, que agora, é e sempre será só teu (afinal, tudo é uma constante mudança). Falei e falei e falei, com você sempre me olhando de um jeito.. não sei, curioso, entretido, não sei ao certo. Sou muito ruim pra definir pessoas em palavras; considero um ser absurdamente e incomparavelmente mais fascinante do que um conceito em uma folha de papel. Mais real.
- E como você sabia que era amor? - você então perguntou.
Meu olhar acabou se perdendo por um instante em algum lugar do outro lado da rua daquele café, indo pra longe dos teus olhos, que estavam fixos tentando compreender minhas feições, talvez. Meu olhar se perdeu e reapareceram todas aquelas lembranças que estavam guardadas em algum lugarzinho da memória. Você irá se lembrar para sempre dessa pessoa sorrindo disse-me uma vez um pedaço da sabedoria transformada em pessoa. E eu, hoje, pensando em um pouco de tudo que já virou lembrança, poderia dizer que é verdade. Quem sabe foi por isso que um sorriso logo se instalou em meu rosto. E no seu também, quando voltei a te ver ali, sentado em minha frente. E percebi como você me faz bem.
- Eu nunca soube. Ouso dizer que nunca saberei. Como podemos afirmar qualquer coisa sobre um sentimento se esse não é traduzível? Eu sempre achei essa questão encantadora, esse detalhezinho que os nossos sentimentos têm, que não podem ser transformados em palavras. E isso incomoda pra caramba, não achas? Mas enfim, soube que era forte quando a vontade de estar com ele era maior que eu, maior que qualquer pensamento que eu tinha durante os dias, maior que minha sede de mundo.
E você sorriu. Você abriu um sorriso no canto da boca. Agora, a mesma imagem desse teu sorriso passa em minha mente. E de novo, e de novo, e de novo. Desviasse os olhos e sorrisse. Nesse instante, a frase insegura que eu proferira resolveu fazer efeito novamente. O mundo parou, sabe? Aquela sensação estranha e boba. Estavas pensando tão distraído em minha resposta que esquecesses de mim ali por alguns momentos, e eu entendi o que eu senti desde a primeira vez que ouvi a tua habilidade e liberdade com palavras. E além de tudo, roubei um pensamento secreto teu. Ou melhor, te deixei pensando, sem falar. Filosofando, sem pronunciar. Você, naquele instante que sorriras, fugisse para o teu próprio infinito interno, e te entendi como nunca. We're so similar.
- Entendo, entendo. - pensei que ias acrescentar alguma coisa, mas não aconteceu. Estávamos os dois sorrindo, cada um em seu mundo, mas por uma mesma razão. A coisa mais difícil e mais bonita de partilhar entre duas pessoas é o silêncio.
Decido então dedicar mais um parágrafo a você. Porque sei que não tem mais volta. Adoro quem sorri com o rosto inteiro, mas continua com uma leve tristeza no olhar. Pra mim, é sabedoria. É o entendimento que não existe caminho pra felicidade pois o caminho já é a felicidade. É essa tristeza (se é tristeza mesmo, acho melhor chamá-la de experiência) que nos deixa com os pés no chão, que nos mantém focados em nossos objetivos, que nos permitem planejar o que quisermos porém sempre tendo, em algum canto da gente, um plano B. É essa experiência que nos faz pensar e refletir sobre o que é bom, o que é errado e o que realmente queremos. E cicatrizes só existem para impedir que você cometa o mesmo erro mais uma vez. Mais uma vez, é só você. Em minha mente, mais uma vez aquele teu sorriso tímido, com ar de 'hm, sei, I've been there'.
A nossa conversa perdurou por muitos e muitos assuntos, como se desenvolvêssemos uma enciclopédia em forma de rascunho. Um rascunho narrado, e só nosso. Um ensaio sem previsão para estréia. Sem estreia. Um ensaio sem final, ou com um final em aberto, que ainda será escrito. Ou que jamais será terminado.
Aí me dei conta, você estava participando da minha vida à pouco tempo, você chegou sem aviso e nem bateu na porta, logo chegou entrando e se fez presente. Encheu a sala, o quarto, a cozinha e o jardim com sua presença. E não quero que você vá, não mais. Me dei conta que, mesmo não sabendo, mesmo não estando escrito em minha testa, você tirou meu sossego, você estava me fazendo dançar no ritmo da música que você escolheu. Pois fique, vai ter bolo.
Inspirações & citações:
Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas
Jane Austen em Pride and Prejudice
Simone de Beauvoir em Mémoires d'une jeune fille rangée
Miguel Sousa Tavares em No Teu Deserto