25.3.12

diário indelével

I

E teve um dia que a menina começou a copiar nossas palavras, e não parou mais. Começou com mãe, pai, vô, vó, uva, cão, gato.. sabe, o essencial. O tempo foi passando e o vocabulário da pequena, só aumentando. Conforme crescia, só falava e falava; e não percebia o tempo passando. Então veio o tempo que ela parou de copiar nossas palavras, mas inventar as próprias. Foi o tempo em que conquistou sua própria voz. Com uma certa independência ainda tímida, começou a proteger seu próprio ponto de vista, a possuir algumas opiniões próprias. E o tempo cismava em passar; e como passou rápido.
De repente estamos aqui, ouvindo a pequena defender a própria tese, o próprio 'eu'. Ela criou um eu-lírico e transformou em só seu, e de mais ninguém. 
A pequena ganhara o mundo.

II

De que valeria o passar das horas se as nuvens fossem maciças, concretas, imutáveis? Do que valeria a liberdade se o céu fosse limite, se ser alguém equivalesse a ser o que todos querem ser, se ser inteligente fosse aqueles que têm bons resultados em testes escolares? Do que valeria a felicidade, caso a tristeza não existisse, caso a criança não sorrisse? Do que valeria o sucesso sem o desafio? Qual seria a graça das piadas se as reuniões de trabalho não estivessem em nossos dias? De que valeria o retorno se a ida não ocorresse? E a saudade, sem a presença? E o diferente, como ficaria se não houvesse o tradicional? O que seria da decisão, se as alternativas inexistissem? O que seria uma novidade, se a rotina fosse, todos os dias, fazer algo extraordinário e ímpar? Do que valeriam todos os silêncios sem todas as palavras?

III

Naquela madrugada, minha confissão não foi através de gestos, olhares ou silêncios. Foi através de palavras. Mesmo que caladas, mesmo que secretas, mesmo que efêmeras, mesmo que já esquecidas. Escrevi e não reli. Guardei o rascunho no verso de alguma fatura mensal qualquer, largada dentro de qualquer gaveta do quarto mais deslocado dentro da residência. Palavras que foram escritas em silêncio e permaneceram no silêncio até caírem no esquecimento.
E hoje revirei todas as gavetas de todos os quartos e, sem querer, encontrei. Ou melhor, reencontrei. Numa folha de papel, um coração se expôs.

IV

Minha maior alegria ocorreu justamente quando comecei a apontar coisas na rua e saber o nome de cada uma delas. Poste, faixa de pedestre, rotatória, sinalização, criança, conveniência, muro, ciclista, limite de velocidade. Tudo pareceu ficar mais brilhante e vívido; o início do outono também leva crédito.

V

Flagrei-me pensando no que aconteceu semana passada.
Logo nos cumprimentamos, os assuntos fluíram facilmente, a caminhada foi agradável e queria ter parado o tempo só pra ficar por ali pelo tempo que quisesse. A conversa ia e vinha e não tinha final, nem precisa ter. Prestamos atenção em não apenas no que o outro falava, mas no trânsito, no canto tímido dos pássaros no topo das árvores da calçada, na mudança de cores que edifícios antigos vinham sofrendo, na música que tocava ao fundo; consequência de estar na proximidade de uma escola de música. Até que ele falou num tom quase inaudível 'ne me quitte pas'. Poderiam ser apenas quatro palavras, mas foram o suficiente pra acelerar tudo aqui dentro, me fazer perder o rumo, o mundo desaparecer e aquela baboseira toda. E eu tinha pensado que não iria passar por isso; não tão cedo. Que não iria sentir nada por ele, com ele, querer estar com ele, contar as horas e coisa e tal. Mas ali estava a prova, a esperança cresceu e aumentou e irradiou e o sorriso sem graça logo apareceu, sem timidez. A resposta não vinha, a voz desaparecera, a respiração aumentara e tudo parecia fazer sentido, ao mesmo que ninguém tinha certeza de nada.
"O que você falou?" foi tudo o que saiu dos meus lábios. "Ah, nada não, é o que diz a música que estavam tocando quando a gente passou por ali" e ele fez um sinal pro caminho que fizemos até tal momento. "Ah sim, claro, também ouvi", concordar e sorrir é sempre a melhor resposta. Foi só um mal entendido.
Então cheguei em casa. Guardei as compras do mercado, fiz algo pra jantar, assisti os novos episódios, refiz a lista do-que-fazer programada para o dia seguinte e peguei o livro da vez de dentro da bolsa, que me acompanhou o dia todo. A leitura noturna sempre me trouxe um certo conforto, onde quer que eu estivesse. E, ao abrir na página escolhida, um pequeno bilhete caiu no meu colo. Ne me quitte pas, mon chérie. Cá estou eu com o sorriso sem graça que estampa meu rosto desde então.

VI

Nada é tão delicado quanto bonitas palavras bem colocadas, bem estruturadas, bem pronunciadas. Nada é tão bonito quanto um sorriso feliz, mesmo sem motivo algum. Nada é tão agradável quanto o inesperado, o que, ou o quem apareceu de surpresa na sua vida e te fez bem. Nada é tão efêmero quanto nós. E nada possui mais significado do que uma felicidade silenciosa, uma alegria que as palavras são incapazes descrever.

VII

Tenho tantas coisas pra te dizer que não sei por onde começar. Eu sei, eu sei que te prometi essa carta faz muito tempo. Sei que minha sutileza não será tão grande quanto pareceu estar na última carta que te mandei; tudo virou um caos. Mas sinto tua falta! E isso que deves ficar sabendo e lembrar no fim de todas essas linhas com essa caligrafia apressada. Como falei, minha vida tá um caos. Eu quero e não quero, gosto e não gosto, almejo e desisto, acordo e durmo novamente, e o tempo não para por um instante se quer. Queria estar aí. Nunca mais estive, não é mesmo? Os anos passam e eu cada vez mais distante. Mil perdões, não era assim o planejado e você, mais do que ninguém, sabe exatamente como é. Seu rosto tá de homem, sua estatura parece que dobrou e meu menino cresceu. Me sinto culpada por ter tomado um rumo de vida turbulento e absurdamente instável desse jeito. Cheguei até a comprar a passagem pra sua cidade (pra nossa cidade, certo?) dessa vez. Mas essas reuniões e encontros e datas e prazos ainda me levarão à loucura. Eu sinto sua falta, já falei? Tem esses momentos que me pego numa situação absolutamente rotineira, olho pro lado e começo a rir, como eu queria que você estivesse al i do meu lado só pra rir comigo. Essas risadas sem motivo, sem razão.. Enfim, acabei sendo breve demais, curta demais, mas ainda hei de te escrever novamente essa semana. Feliz aniversário é pouco, feliz é pouco! A próxima carta estará repleta de confissões, novidades, perguntas, enfim, cheia de mim. Quero que sejas feliz sempre e quero estar aí o mais rápido possível.

VIII

Talvez palavras tenham, de fato, a maior importância já atribuída à qualquer algo, ou alguém. Palavras são a razão, são a comunicação, ou a falta dela. Palavras são significados e ainda são palavras por si só. São tudo, transmitem tudo, limitam ou ilimitam, definem ou deixam no abstrato. Interpretam, degradam, machucam. Descrevem, encantam, evocam e silenciam. Palavras são mágicas, enfeitiçadas, irritadiças. Palavras sofrem todos os dias com uma luta árdua de sobrevivência. Palavras possuem interpretações, significados, colocações, declinações, rimas, sinônimos, antônimos, repetições, classificações, funções, imitações, entonações e tantos outros adereços. Possuem origem, possuem história. São história, fazem história e contam a história. Possuem ritmo, possuem pausas e podem cair em desuso. Podem ser esquecidas assim como podem fazer parte da eternidade. Assim como podem ser a eternidade.
Talvez palavras também têm alma. Cada uma, a sua. E têm uma vida; com início, meio e fim.
Início quando começam a ser desenvolvidas numa mente qualquer, quando são desenhadas na folha de papel, quando são ensaiadas, rascunhadas.
Meio ao criarem seu próprio sentido, ao criarem suspense.
Fim quando deixam dito o que era pra ter sido dito.
Fim quando transmitem, encantam e significam.
Fim quando retornam (e sempre retornam) ao ponto final.

 

"Enfim, nenhuma das palavras coube em mim":
http://afonsinhoteixeira.blogspot.com.br/

Trilha sonora, ou parte dela:
http://youtu.be/VDg6pBMlsI4
http://youtu.be/9HbQFb9GR5E
http://youtu.be/u3HiG8JJkGw
http://youtu.be/ogmJ2B41l2U