Pondo as coisas no papel, tornamo-nos vulneráveis. Como se toda a timidez existente nos invadisse e passasse a nos definir. Timidez por simplesmente não ostentar um olhar na madrugada, não falar o que deveria ser falado em algum momento de quando estávamos sob o céu repleto de estrelas.
Dia após dia, luto para tornar-me adulta. Mas sempre há essa voz de menina dentro de mim que recusa-se a morrer. Todos os dias sorrio, enfrento, escuto, respeito, resolvo, amenizo e acredito quando, de repente, essa bendita voz com timbre infantil fala, recita, expõe suas opiniões cheias de expectativas, sonhos, esperanças e curiosidades. Ansiedade é a palavra que melhor define essa voz que carrega consigo minha insegurança.
Por vezes encontrei-me sozinha em casa durante a madrugada, justamente ouvindo essa minha criança interna discursar sobre sua sede de mundo, sua vontade de viver pra sempre, suas vitórias em suas brincadeiras e seu medo do escuro. E esse último assunto foi sempre o que mais me entreteu.
Para ela, o escuro sempre foi motivo de criaturas maldosas, coisas ruins e insegurança. Ela sempre teve medo dos barulhos que a casa faz mesmo quando adormecida, do que a imaginação é capaz ao sentir qualquer indício de insegurança quando as luzes são apagadas, da incerteza da ordem dos pensamentos antes de dormir, e das histórias de terror contadas ao lado da fogueira, ou então das lendas infantis sobre monstros embaixo da cama ou dentro do guarda roupa.
São nesses momentos em que ela me confessa esse medo do escuro, que eu lhe mostro as estrelas. Como são vulneráveis, como são minúsculas quando colocadas no infinito escuro do universo, explico para ela. Como são brilhantes e como parecem ser eternas. Nesse momento, falo para essa menina que ainda me habita que, mesmo no escuro, mesmo sentindo uma certa solidão, alguém te encontra.
Alguém igualmente tomado pela timidez, que igualmente se sente vulnerável diante de um rascunho e que também possui essa criança dentro de si trazendo uma certa insegurança a todas as suas decisões. Alguém que vai entendê-la porque possui o mesmo medo do escuro. Alguém que vai segurar sua mão quando a solidão parecer estar ao redor, alguém que vai se aproximar de você através do olhar, alguém que te convencerá a ficar pela voz e a beleza das palavras que um dia rascunhara. Alguém que vai te conduzir no escuro, alguém que te dará segurança.
E quando percebo, a criança adormeceu na calma do amanhecer. Presto atenção em sua respiração tranquila e cálida e sei que, a partir daquele instante, tornei-me o que sempre desejei ser.
para outras facetas do escuro
http://afonsinhoteixeira.blogspot.com.br/2012/03/o-salmo-23-no-escuro.html
Inspirações:
http://youtu.be/NyMg-EhZ1Es
Liv Ullmann in The Change