Acordei perplexa. Se é que posso chamar aquilo de acordar. Quem sabe, saí de mim, entrando num pensamento tão profundo quanto a teoria do Big Bang. Quem sabe, descobri um novo sentimento sem querer. Quem sabe, tive consciência do mundo, deixando de querer ser o centro deste. Quis gritar, espernear, dizer que estava tudo acabado! Terminaria minha relação com isso tudo. Colocaria um ponto final e descobriria, então, o que o destino tem guardado pra mim. Quis dominar o padronizado, mudar os limites, transcender gerações. Em suma, brincar com o tempo. Levantei-me, fiz mais uma xícara de café, segui com o olhar focado, porém indiferente. Sabia o que queria e não como realizá-lo. Era impossível. Como poderia, sozinha, conquistar a certeza? Queria mesmo assim fazê-lo? Queria descobrir o que o amanhã traria de novo, de novo? Descobriria eu, de fato, o que seria essa tal de certeza?
E o que aconteceria? Morreria? Teria uma crise de pânico, uma parada cardíaca, uma sensação de alívio? Um aperto tão forte quanto uma apunhalada no peito? A incerteza me estrangulava, mas a vida não passa de uma eternidade entre dois nadas. Saí da cozinha, precisava de ar puro. Entre as tonalidades do verde da mata, senti a umidade na minha pele e dei-me conta de que a música mais bonita é um coração batendo.
Olhei pro horizonte, respirei. Inspirei e expirei, até que conseguisse sentir os limites do meu diafragma. A sensação de liberdade foi tanta, que pensei ter saído do solo. Satisfação. Olhei pra trás e vi desejo, anseio, sonho. Inspirei e expirei, até que os pulmões doessem com tal alongamento. Olhei para o meu reflexo, sorri; e, dessa vez, prendi a respiração. Até que o coração disparou, as pupilas dilataram-se, o sangue subiu e não aguentei mais. Sorri novamente. Era isso!, afirmei em minha mente. Não quis mais nada, não ambicionei mais nada, não tive crise de pânico alguma.
Nasci do nada, e cresci. Vivenciei, observei, estudei, avaliei, desejei, ambicionei, sonhei. Naquele dado instante, renasci. Entendi que sou, agora, realização. Efetivação. Comprovação. Sou desejo, sou resultado, sou desejo. De um verbo qualquer, virei nome próprio. Entendi que a incerteza é a amante do que é vivo, do que é imperfeição. Entendi que, com a certeza, deixamos de ser desejáveis, deixamos de ter desejos, deixamos de viver para simplesmente sermos. Estarmos. Observarmos. Sem agir, sem interpretar, sem duvidar. Seria uma vida certa, pronta, sem opções, sem decisões a serem feitas, sem questionamentos, sem melhoramentos, sem erros. Entendi que essa sensação que tenho, esse incerto que me abraça, me acompanha, me sufoca em certos momentos, faz parte. Tentar é o primeiro passo para o sucesso. Entendi que sou, agora, realização. Comprovação. Sou um nome próprio escrevendo sua própria história.
3.11.12
frühling
at 12:08 AM