2.2.13

trechos catárticos (parte 1)

"Catarse s.f. Estética. Teatro. Num espetáculo trágico, refere-se ao desenvolvimento de uma espécie de purgação de alguns sentimentos, nomeadamente, de pavor ou de compaixão, do público."

 

1.

No palco, a ênfase no silêncio parecia perpetuar-se por horas. Na plateia, houveram os que olharam ao redor, os que ajeitaram-se desconfortavelmente na cadeira, os que calaram-se juntamente com os atores, sentindo uma empatia ou um déjà vu visível aos olhares alheios. Houveram também aqueles olharam, mas não enxergaram; aqueles que, em segundos, viram, ali, suas vidas sendo encenadas. Houveram ainda aqueles que sentiram na pele o arrepio ao ver a protagonista ter a feição modificada quase que inteiramente por lágrimas e mais lágrimas e mais lágrimas.

E eram de felicidade. Era como se ela estivesse em um patamar de felicidade tão absurdo, que estivesse – quase – em um mundo paralelo à realidade. Ainda assim, a frase que ecoou no ambiente fora sofrida, doída, magoada.

“O que significa amar? Durante anos pensei que significa conhecer a outra pessoa.. sabe, perfeitamente; com todos os seus segredos, conhecer todas as nuances de seu corpo, cada reflexão, conhecer profundamente a sua alma e cada uma das suas emoções. Talvez seja isso, talvez conhecer seja o mesmo que amar. Mas isso é apenas uma teoria. Afinal, o que significa conhecer? O quanto pode se conhecer um ser humano? Até onde pode se seguir uma alma desconhecida? Até os seus sonhos? E chegarei aonde? Não é qualquer um que conseguirá acompanhar a sua inconsciência. E ainda não sei o significa amar.. Devo eu então perguntar? E pra que serve saber o significado? Não tem nada a ver com a razão. Certamente o amor é algo mais do que conhecimento. Conhecer alguém não é muito, e tem os seus limites. Amar deve ser algo parecido com seguir o mesmo ritmo, uma casualidade maravilhosa, como se no universo existissem dois meteoros com a mesma trajetória, a mesma órbita e a mesma composição. Uma tal eventualidade que não se pode calcular, muito menos prever. Talvez nem exista.
Duas pessoas que gostam da mesma comida e das mesmas músicas, que caminham na mesma velocidade numa mesma rua e que possuem o mesmo ritmo na cama: talvez isso seja amor. Que coisa mais estranha que deve ser! Como um milagre.. Eu imagino que esses encontros devem ser quase místicos. A vida real não é baseada em tais probabilidades. Creio que as pessoas que seguem o mesmo ritmo, que gozam ao mesmo tempo, que pensam o mesmo sobre as coisas e as expressam com palavras idênticas.. Bom, creio que isso simplesmente não existe. Um dos dois sempre será mais lento e o outro, mais rápido. Um é tímido e o outro, ousado. Um ardente, outro morno.
É assim que a vida deve ser vivida, com encontros.. É preciso aceitar a felicidade, mesmo em seu estado imperfeito.”

“Mas é na imperfeição que encontra-se o perfeito! Não vês? Estamos no nosso melhor momento e somos exatamente isso que acabastes de descrever: essa quase aberração mística. Eu te amo tanto, logo agora! Como nunca te amei, ou amei qualquer outro alguém. Éis meu acaso, meu meteoro. E não, não hei de desistir aqui. Serão endereçadas a ti todas as minhas cartas de amor, serão para ti todas as dedicações de todos os meus livros e recordações. Será para ti a minha eternidade”

“E, eu.. eu te amo também.”

Aquele ‘eu te amo’ sussurrado entre lágrimas parece ter vindo do fundo do ser, queimando a garganta, travando a língua, descompassando o coração. Foi como o último suspiro em vida. Foi o fim do último ato.

(Ao sair do teatro, as mãos uniram-se. Instantaneamente. Naturalmente. Involuntariamente. A entrega foi imediata; o que era sonho, tornou-se realidade. Todos viram o quão únicos eram quando juntos. Todos apostaram. Todos tinham razão. Eles eram feitos um para o outro, como um dia alguém cantou)

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"Corra os olhos pelo mundo, por toda a parte se irradia essa atração artificial, da literatura e das imagens, dos palcos e das ruas.. Entre num teatro, na platéia estão sentados homens e mulheres, no palco mulheres e homens gesticulam, falam, fazem promessas, e na platéia as pessoas pigarreiam e tossem.. Mas, quando os atores pronunciam uma frase como 'Eu te amo', 'Eu te desejo' ou coisa parecida, que evoque o amor, a posse, a ruptura, a felicidade ou a infelicidade, a platéia cai num silêncio mortal, milhares de pessoas prendem a respiração."

Sandor Márai

 

mãos
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