"Catarse s. f. Purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um drama. É preciso que o herói trágico passe da "Felicidade" para a "Infelicidade" por alguma desmedida sua para atingir a catarse."
2.
Foi em janeiro de 2012 que eu conheci o que viria ser o meu oxigênio.
Por mais que ele já tivera a incrível audácia de roubar meu olhar, meu pensamento, minha respiração e os batimentos do meu coração na rua, sem nem perceber, sem nem me conhecer, lembro como se acabara de acontecer, quando eu realmente perdi o chão quando ele se virou e dirigiu um par de palavras num idioma não tão estranho aos meus ouvidos, mas como eu fiquei sem entender nada, só olhei. Eu não soube articular uma palavra sequer. Já comecei errado, pensei comigo mesma. Deveria parecer-me interessante, articulada, encantadora! Mas não, permaneci ali, estática, curiosa, encantada. Foi a primeira vez que ele me deixou sem palavras.
“E então, o sujeito me fascinou.
Ao contrário de atender ao amor que bateu à porta, baixinho, de mansinho, com calma.., preferi correr pro quarto pra ver quem aparecera ali de surpresa, como se pulasse sem querer pra dentro da minha vida. Foi como estar me aventurando em algum caminho desconhecido, ao estar na companhia de um desconhecido. Foi como experimentar novamente todos os meus sabores favoritos, mas com uma nuance com toque de novidade. Foi querer tudo de novo, como que desejar entrar nesse ciclo vicioso de amores e dores intermináveis, all over again. Desejar tudo de novo, começo e meio e sem fim. Foi querer a eternidade novamente, foi desejar ser tudo de novo, foi ser quem sempre fui, ser quem sou, ser quem serei; contigo. (...)”
E, conforme os dias e as semanas se passavam, esse momento só se repetia. As afinidades iam sendo descobertas na mesma proporção que o brilho nos meus olhos aumentavam: a escrita (“Esse,um autor que segue / Sonhando acordado / Em plena madrugada”) , Beatles, Poisel, piano, chocolate, café.. Eu, que antes jamais ficara assim, sem reação alguma, rendi-me desde o primeiro segundo. Foi como se uma força incomparavelmente grande me invadisse e me deixasse assim, sem poder revidar, sem forças pra nada. Uma força que me envolveu de imediato, sem mais, nem menos. Eu, que jamais sentira aquilo, não soube bem o que fazer, só queria ser o meu melhor, porque ele merecia nada menos que o melhor que o mundo pode oferecer.
“E quando me olhas assim, com esse ar de curiosidade, interesse e fascinação, entrego-me por inteira. É quando surge aqueles olhos brilhantes no lugar dos meus, um sorriso tímido no canto da boca e um jeito sem jeito de permanecer ao teu lado, mesmo você não sendo meu. Quando me perguntas tuas dúvidas, o que posso fazer sem perder a linha de pensamento, sem deixar o raciocínio de lado e fingir que eu estou realmente pensando, e não percebendo tua boniteza. E o lindo sorriso que tem o teu nome.”
Em cada instante compartilhado, eu só ansiava por mais. A cada palavra dedicada, entregava-me mais. Em cada madrugada insone, sonhei mais e mais. Isso tudo me deixava bem, eu queria ele ao meu lado mais do que deveria. Ele era tudo pra mim e nem sabia. Eu sentia-me feliz, completa, em sua companhia.
“Faz tempo que eu não sinto essa tal sensação de plenitude. De quando você acorda sorrindo, você sai atrasado sem sentir-se culpado, você não reclama quando o computador demora pra ligar, ou pra responder; e você não se importa se a fila do restaurante na hora do almoço está enorme. A paz interna que te consome parece droga. É viciante.”
O poder ser quem quiser, ter todos os poderes nas próprias mãos, ter a maior confiança existente, a risada mais espontânea que há e um encanto que atrai a atenção de todos. Você se torna incrível e sabe disso. É quem quiser ser e é consciente disso. Ama quem quiser, como quiser, e é capaz disso.
Alertaram-me então, me puxaram de volta pra realidade: eu não deveria sentir aquilo. Eu não podia. Quem sabe um dia, um ano, um momento da vida diferente, mas não ali e naquele exato instante. E mal sabiam eles, já era tarde demais! Meu estômago já sentia as borboletas quando era dia de vê-lo, meu sorriso se abria ao pronunciar seu nome, meus sonhos já eram dele. E eu tinha tanto pra lhe dizer!
Aquela sensação boa demais pra ser verdade teve então o seu ápice: na plateia de um concerto, quando a atenção dele estava totalmente voltada para o palco, eu me vi no mesmo clímax que ele estava. Então eu soube, dei-me conta: era com ele que eu queria estar. Sempre. Ele era o meu cara. E eu queria que ele soubesse disso.
Foi só questão de tempo, porque ele já tinha entendido também. “Fica.”
“Não vai, fica. Tenho medo quando não estás comigo. Tenho medo de, por algum acaso da vida, não te veja mais por aí, por aqui, do meu lado. Fica pra tomarmos mais um café, conversarmos sobre nossos planos, sobre a vida, não sei. Fica porque te quero aqui e agora. E não só agora, quero sempre. Tua ausência me enfraquece. Por isso, fica."
Dessa vez, eu conseguira articular algumas poucas letras, e pronunciara uma palavra: fica! Era final de abril. Um dia quente, abafado, típico dessa cidade catarinense. Depois de uma boa mentira contada e um banho de chuva, meu coração conhecera seu dono. Me senti completa. Era verdade, era recíproco. Era um sonho, e eu nem estava dormindo. Eu estava cansada, mas eu estava feliz. Como nunca estivera. O mal estar que sentia enquanto sozinha em outra cidade não muito longe daqui passara. Eu estava repleta de uma coisa só: felicidade. Naquele exato instante, eu entendi o que era sentir-se completa. Repleta. Feliz.
“(...)
Para contar-te o que passa em mim
Em versos curtos, tímidos
Como num poema conta-gotas
Que te espio da janela,
Quando vais embora;
Que quero dormir enroscada em teu cabelo.”
Mais uma vez, o tempo pareceu passar bem mais rápido que deveria e, depois de vários momentos, apresentações, situações desconfortáveis e outras confortáveis até demais que até hoje são lembrados com uma nostalgia forte, um sorriso na cara e risadas felizes, nos vimos em uma manhã nublada de outubro, depois de um café meio apressado, meio atrasado, um pouco sonolento, um pouco no improviso, na calçada que parece não parece fazer parte da mesma cidade que estávamos. Naquele instante, imortalizado por uma flor de pétalas vermelhas, os corações parecem ter se unidos. Foi a entrega mútua. “Eu te amo também.”
"Acordei querendo.
Lençol bagunçado, cortinas bem abertas, café na cama e cheiro de banho.
Abraço apertado, mordida doída, beijo demorado.
Banco do passageiro ocupado, cinema às quatro, sentidos aguçados.Acordei te querendo.
Teu riso estampado, teu cheiro espalhado, tua música na rádio.
Sussurrar no teu ouvido, desejar você assim, desinibido;
E deixar você ser o meu livro mais lido.”
Não muito distante desse dia, em uma noite de promessas mútuas, sorrisos bonitos para as fotos, sonhos realizados, laços sendo formados e vestidos e gravatas e laços e sapatos lustrados, veio mais uma certeza: isso seria memorável. Que seria algo permanente, inesquecível. Que nós estávamos escrevendo uma história só nossa que não poderia ser apagada, ou esquecida. Não seríamos esquecidos, não nos esqueceríamos, nem que quiséssemos.
“É impossível deixar passar desapercebido. Essa sensação de sentir a realidade melhor que sonhos, a despreocupação absoluta, a felicidade irritante. A alegria de acordar, viver, sentir. A vontade de viver pra sempre. Eternidade, estaria eu falando sobre isso? O pensamento vai longe ao se pensar no futuro, mas a sensação de satisfação em estar aqui e agora é insubstituível. As músicas que lembram, os filmes que inspiram, os poemas que relatam, os textos que narram. Nada é melhor que a imperfeição de ser o que é. O egoísmo de querer somente para si e para sempre. O jeito de falar roubado, a timidez substituída por sorrisos, o silêncio confortável, a gratidão calada. Ninguém entende, mas entendemos. O perfume já conhecido, o abraço confortável, o vício insaciável. A inspiração constante e o bloqueio criativo. A satisfação em estar vivo, a alegria em encontrar alguém, o anseio na espera, a falta absurda na ausência. A sensação de plenitude. Estar completo. Estar feliz. As características em comum, os antagonismos em contraste, mas que se completam. Tem o que não tenho, gosta do que não gosto, planeja o que não planejo, sonha o que não sonho, é o que não sou. Ao mesmo tempo que é tudo que eu quis achar. O que mais intimida, o que mais encoraja, o que mais acredita. A espontaneidade inesperada, as palavras perfeitamente não calculadas. Ah, dizem que tudo passa. E se dessa vez, permanecer?”
As semanas que se sucederam foram de agonia, ansiedade, nervosismo. Foram seis semanas de dias e noites debruçada sobre livros, exercícios, leituras, enfim.. Em que meu único refúgio era na companhia dele. Ele, e sua capacidade de acalmar-me mais que maracujina ou Marcelo Camelo. E, sem que percebêssemos, tornamo-nos inseparáveis. Enfrentáramos, até ali, naquele momento, dificuldades, surpresas, desconfortos e entregas.
Com o final de ano, veio a distância. E o ensaio do que ainda estava por vir. Quem sabia que a distância e o tempo poderiam ser assim tão cruéis? Na noite de natal, na virada do ano.. Um detalhe sempre faltou: a presença dele. Contei as horas pra voltar pro seu abraço. Foram menos postais que quis, queria dizer a ele a todos os instantes que ele fazia mais falta que imaginava. Mais que eu queria. Dei-me conta que estava cada vez mais difícil ficar sem ele ao meu redor. Longe, distante, em fusos diferentes: eu não gostei daquela sensação. Meu sorriso não parecia tão feliz, meus dias pareciam incompletos e, em minha voz, a saudade era notada.
“Saudade dessas
Inesperada
Amarga
Calada
Que não larga.”
Dois mil e treze chegara e o calor dos braços dele também. Pra mim, o ano novo só iniciou-se quando eu ouvi, em sua voz, os desejos para os próximos doze meses. O ano novo também trouxe o que tornou-se minha música preferida: com uma nobre dedicatória, suspirei e percebi que as notas interpretadas também suspiravam. Eu estava de novo em casa (“home is wherever I’m with you”), e dali não quis mais sair.
Janeiro e seu calor às vezes insuportável rendeu-nos boas histórias, o início de um novo aprendizado (“Je t’aime aujourd’hui et toujours”) e uma queimadura na perna. Além disso, o que antes era só meu, meu mundo, meu infinito particular, agora estava repleto com o perfume dele. A realidade me deu mais um tapa na cara: tudo que era meu, agora era dele também. Eu não tinha mais onde me esconder, tudo me lembrava ele, e isso assustou, ao mesmo tempo que reconfortou.
E agora, aqui estou. Acabo de te ver e te quero novamente. Viraste o ar que respiro, te tornaste o meu herói, o maior amor que já senti. A constelação mais bonita, a música mais tocada, o meu sonho em realidade. O tempo passou mais rápido que gostaria e nos encontramos, agora, a duas semanas do que ainda queremos evitar.
Ainda temos muito o que fazer, decisões a tomar, receitas a cozinhar, filmes para assistir, listas para cumprir.. E o tempo parece tão injusto! As lágrimas já são presentes, é o drama do momento. E a verdade é, o tema que agora aqui cumpro, até agora foi evitado porque é justamente o que eu não quero que vire realidade. Deixa estar como está. A catarse está em minha frente, e prefiro não enxergá-la. Não ainda. E você é tão bonito.
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Foi no silêncio da madrugada que consentimos. Mesmo sem a pronunciação de uma palavra sequer, entendemo-nos como nunca antes. Cúmplices. No melhor e no pior, estaríamos ali e, naquele instante, tudo isso fizera sentido. Em um ano, minha vida mudou. Aprendi a ter outra opinião sobre o reflexo no espelho, passei pelo melhor e pelo pior dos humores, das sensações, dos medos. Fiquei sem palavras, tranquei a respiração, achei que tudo ia dar errado, me superei, me surpreendi, ganhei de mim mesma em uma aposta. Ganhei o maior amor que já senti. Conquistei, persuadi, sonhei, realizei e, o mais importante, vivi.
E nada ainda tinha surtido o seu efeito dentro de mim até aquele mero instante em que olhei pro lado, febril, com o corpo dormente, meio sem razão, meio sem consciência, que vi que nada vale a pena se estamos sozinhos. Se não temos com quem ou para quem contar todas as nossas vivências, problemas, ambições, vontades, desejos,.. enfim, histórias. Nada é realmente válido se, no fim do dia, não pudermos narrar com hipérboles e aliterações para quem amamos.
(Vai, mas volta logo, porque eu não sei mais viver sem você)
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todas as citações são desse mesmo blog,
e todos eles são dedicados a mesma pessoa.
em exceção: http://youtu.be/DHEOF_rcND8
(home is wherever I’m with you”)
You have bewitched me, body and soul
http://afonsinhoteixeira.blogspot.com.br/2013/02/maco-ou-carteira-2.html