(Inspiração)
Toda palavra começa com uma respiração.
Mas eu me lembro do dia que uma respiração não resultou numa palavra, e sim na ausência dela.
(Expiração)
(isso é um alívio, something from the heart that was begging to come out)
As dores se diferenciam. Uma dor é quando alguém deixa de habitar a sua rotina. A segunda é quando a voz se vai, e o perfume é esquecido.
Os dias se tornaram mais cinzas. O azul do céu não era mais o mesmo. Eu parecia estar fora de órbita o tempo inteiro. Digo, haviam dias bons, quando eu quase conseguia esquecer de toda a ausência. Quase. O sorriso aparecia mais fácil, a risada era da boca pra fora.
Houve um momento que eu entendi que, ainda que inconscientemente, os dias passavam. E isso fazia bem, ao mesmo tempo que fazia mal - a contagem no canto do calendário era otimista, ao mesmo tempo que apunhalava por trás.
Cada dia era uma luta particular ao acordar e tentar levantar da cama. “Pra quê?”, algo gritava dentro de mim. Uma voz aveludada e de coração partido. Poderia ser a minha própria voz, mas sentindo saudade, com um tom de desespero. Como uma criança que chora ao ver alguém partir. Eu, por vários momentos, pensei que não ia dar certo, que eu estava me perdendo, asfixiada de dentro pra fora. A dor meio mais forte que eu já pensara.
O primeiro bom dia, sem olhos inchados, sem choramingos no passar do dia, sem vontade de ter mais alguém habitando a casa, foi quando eu entendi que eu estava sozinha. Que não apareceria ninguém na porta trazendo o jantar. Que não encontraria calor de outro corpo no outro lado do colchão. Que eu teria que trazer todas as compras do mercado sozinha pra casa. Que sobraria comida após o jantar, porque a quantidade era pra dois.
“É temporário”, eu sempre falava alto, pra me convencer. Parecia não funcionar por várias e várias vezes. Parecia que o tempo se arrastava. Parecia que meu coração ia parar - ainda que eu pensei que meu coração tinha sido levado embora também.
Eu queria, ansiava pela voz, pelo calor, pela presença, pelo perfume do meu moreno. Minha vontade era trocar tudo que eu possuo por ter um minuto a mais na companhia dele todas as manhãs.
O tempo passava, haviam bons dias, dias ruins.. A voz dele invadia a casa de vez em quando - falha, com dificuldades de conexão, mas ela ecoava pelos pequenos cômodos. Até o dia que o perfume se foi.
Acho que a sorte - se é que posso chamar de sorte - foi que aconteceu justamente no final de toda essa ausência. Mas eu acordei em meio de soluços, em pânico. O ato reflexo foi procurar a única peça de roupa que tinha dele comigo. Já tinha o meu perfume de tanto que grudei na camiseta durante o tempo que já se passara. Se eu tinha dado alguns passos na direção de uma calmaria, eu voltei ao início. O coração acelerado clamava por calma, por conforto. O abraço cheio de nada. A voz dentro de mim. A exaustão de ver meu reflexo com bochechas inchadas. Eu só queria que tudo acabasse.
De fato, ainda bem que estava quase no fim. O impacto da falta do cheiro dele fez com que eu me afaste de tudo que eu consegui. Inclusive dele. Meu reflexo foi tentar afastar o máximo toda a dor que eu sentira até então, porque já não tinha mais forças pra mais nada. Não queria mais levantar da cama nas manhãs - eu não conseguia.
Ao reencontrar a voz, o abraço e o perfume do meu moreno, sabia que eu tinha voltado praonde sempre pertenci. Ainda que não estivéssemos em casa, ainda que a companhia se tornara momentaneamente estranha - o que não durou nem um hora sequer -, eu tinha certeza que o pedaço de mim que parecia ter se perdido em algum lugar daqueles seis meses, havia voltado.
O céu voltara a ser azul bonito - quase tão bonito como o meu bonito é. A voz não tinha mais falhas ou um som eletrônico. O calor exato da temperatura dele estava ao meu redor novamente, e todas as minhas lágrimas que habitam (até agora), vez ou outra, minhas bochechas, são acompanhadas de um largo sorriso. E o perfume, ah, continua sendo o meu preferido - feels like home.
Saudade é pra quem tem.
(Inspiração, porque a presença dele nunca é demais)
http://afonsinhoteixeira.blogspot.com.br/