Momento
1: quando se encontra o amor da sua vida
Eu
já havia ouvido tudo isso de outras pessoas e, sem dúvidas,
irá soar como algo adolescente, apaixonadinho, sem noção,
etc. Eu sei. E é
exatamente assim que eu me senti.
Quando
eu tinha por volta de 5 anos, eu vi um desenho animado no qual uma menina
encontrava o garoto que tornar-se-ia o homem de sua vida. No momento em que se
conheceram, a câmera, como se estivesse no lugar dos olhos dela, focaram o rosto
dele somente. Tudo ao seu redor se tornara nada mais que vultos, e o mundo
pareceu, ainda que por menos de 5 segundos, girar em câmera lenta.
E,
de novo, foi exatamente assim que eu me senti. Eu não lembro, e
creio que jamais lembrarei, a expressão que estampou minha cara, o que ele falou
ou como eu reagi. Eu não lembro com que roupa estávamos,
quem estava próximo a nós, ou a música que estava tocando.
Eu
só lembro que o meu mundo parou.
E é engraçado
(já) ter sentido isso, mesmo com tão poucas
primaveras no meu currículo. Sinto-me profundamente sortuda.
Eu
já conhecia ele. Melhor, eu já tinha visto ele. Por diversas vezes, por
amigos em comum, por fotos nas mídias sociais da época, por aí vai.
Eu já tinha o visto antes, eu já havia esbarrado com ele na rua no centro
da cidade, eu sabia algumas das bandas que ele ouvia, alguns de seus gostos..
mas meu mundo nunca tinha parado ao olhar pra ele. Até, justamente,
o momento em que o olhar dele focou nos meus olhos - e não
saiu mais.
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Eu
pensava que such thing não existia. Quero dizer, eu tenho em casa um
casal exemplar que estão há 27 anos
juntos e se conhecem há muito mais tempo que isso, e parecem ter
se conhecido no ano passado. Mas eu nunca pensei que depois do século
XXI, as coisas também poderiam ser assim.
Novamente,
eu pensava assim, até
o momento em que eu conheci ele. Como eu jamais
conhecera alguém antes.
Aquele
‘conhecer' que sabe qual opinião dar na cor
da camisa que servirá
de presente (“essa cor ele quase não
usa […] essa eu creio que ele usaria, principalmente porque a sua preferida
é num modelo parecido..”), que sabe quando teimar porque sei que
valerá a pena, ou quando me senti importante sabendo que aquele momento
juntos ficará para a eternidade em sua lembrança.
Só que,
o problema em se conhecer o amor da sua vida com tão pouca idade,
é ter uma vida para se livrar ainda. Essa que leva (seriamente) em
consideração graduações, horas vagas - que deixam de seres vagas -, distâncias
necessárias, etc.
E é aí aonde eu quero chegar.
Momento
2: quando os seus 3 últimos anos de vida cabem em duas caixas.
Eu
já tive, certa vez, que guardar um ano da minha vida em algumas caixas.
Mas foram algumas. E foi uma fase que comumente chamam “uma vida em um
ano”. Aquilo foi, de longe, a tarefa mais difícil que eu
tive. Até aquele momento.
Na
verdade, o ato de guardar todas as imagens, ingressos, fotografias, enfim.. é o
que menos machuca. O que corta, parte em pequenos pedaços, esmaga, é ter
tudo aquilo - que parecia uma eternidade - guardado em somente alguns centímetros
cúbicos.
Quero
dizer, qual é o tamanho físico de um coração? Agora, o
quão grande deveria ser o seu coração para caber
tanto sentimento, tanta gente, tanta afeição por pessoas
e lugares e memórias?
Tudo
o que está ali, naquelas caixinhas que agora repousam serenas na prateleira,
invadiram galáxias, infinitos particulares, lares inteiros. Foram pétalas
de flores, caligrafias saudosas, cartões
sem contexto necessário, primaveras, invernos, verões
e outonos inteiros. Folhas caídas dos solos que cruzei, guardanapos
desenhados na base do improviso e à flor da pele. Falas decoradas de peças
desastradas, rimas indissolúveis em páginas e mais páginas
de papel, o sabor preferido do chá da madrugada, a primeira melodia da manhã, o
tato da pele com relevo intransponível.
Qual
é a proporção disso tudo?
Ashes
to ashes, dust to dust, nossas vidas cabem em uma
caixinha também. Mas essas aqui, invés de trágicas, aspiram
sorrisos, inspiram lembranças saltitantes, ressoam como a mais doce nota
sustentada no piano, tem um elixir de lírios com gérberas,
e uma saudade do tamanho de um oceano inteiro.