31.7.14

Big Bang

Momento 1: quando se encontra o amor da sua vida

Eu já havia ouvido tudo isso de outras pessoas e, sem dúvidas, irá soar como algo adolescente, apaixonadinho, sem noção, etc. Eu sei. E é exatamente assim que eu me senti.

Quando eu tinha por volta de 5 anos, eu vi um desenho animado no qual uma menina encontrava o garoto que tornar-se-ia o homem de sua vida. No momento em que se conheceram, a câmera, como se estivesse no lugar dos olhos dela, focaram o rosto dele somente. Tudo ao seu redor se tornara nada mais que vultos, e o mundo pareceu, ainda que por menos de 5 segundos, girar em câmera lenta.

E, de novo, foi exatamente assim que eu me senti. Eu não lembro, e creio que jamais lembrarei, a expressão que estampou minha cara, o que ele falou ou como eu reagi. Eu não lembro com que roupa estávamos, quem estava próximo a nós, ou a música que estava tocando.

Eu só lembro que o meu mundo parou.

E é engraçado (já) ter sentido isso, mesmo com tão poucas primaveras no meu currículo. Sinto-me profundamente sortuda.

Eu já conhecia ele. Melhor, eu já tinha visto ele. Por diversas vezes, por amigos em comum, por fotos nas mídias sociais da época, por aí vai. Eu já tinha o visto antes, eu já havia esbarrado com ele na rua no centro da cidade, eu sabia algumas das bandas que ele ouvia, alguns de seus gostos.. mas meu mundo nunca tinha parado ao olhar pra ele. Até, justamente, o momento em que o olhar dele focou nos meus olhos - e não saiu mais.

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Eu pensava que such thing não existia. Quero dizer, eu tenho em casa um casal exemplar que estão há 27 anos juntos e se conhecem há muito mais tempo que isso, e parecem ter se conhecido no ano passado. Mas eu nunca pensei que depois do século XXI, as coisas também poderiam ser assim.
Novamente, eu pensava assim, até o momento em que eu conheci ele. Como eu jamais conhecera alguém antes.

Aquele conhecer' que sabe qual opinião dar na cor da camisa que servirá de presente (essa cor ele quase não usa [] essa eu creio que ele usaria, principalmente porque a sua preferida é num modelo parecido..), que sabe quando teimar porque sei que valerá a pena, ou quando me senti importante sabendo que aquele momento juntos ficará para a eternidade em sua lembrança.

Só que, o problema em se conhecer o amor da sua vida com tão pouca idade, é ter uma vida para se livrar ainda. Essa que leva (seriamente) em consideração graduações, horas vagas - que deixam de seres vagas -, distâncias necessárias, etc.

 E é aí aonde eu quero chegar.

Momento 2: quando os seus 3 últimos anos de vida cabem em duas caixas.

Eu já tive, certa vez, que guardar um ano da minha vida em algumas caixas. Mas foram algumas. E foi uma fase que comumente chamam uma vida em um ano. Aquilo foi, de longe, a tarefa mais difícil que eu tive. Até aquele momento.

Na verdade, o ato de guardar todas as imagens, ingressos, fotografias, enfim.. é o que menos machuca. O que corta, parte em pequenos pedaços, esmaga, é ter tudo aquilo - que parecia uma eternidade - guardado em somente alguns centímetros cúbicos.

Quero dizer, qual é o tamanho físico de um coração? Agora, o quão grande deveria ser o seu coração para caber tanto sentimento, tanta gente, tanta afeição por pessoas e lugares e memórias?

Tudo o que está ali, naquelas caixinhas que agora repousam serenas na prateleira, invadiram galáxias, infinitos particulares, lares inteiros. Foram pétalas de flores, caligrafias saudosas, cartões  sem contexto necessário, primaveras, invernos, verões e outonos inteiros. Folhas caídas dos solos que cruzei, guardanapos desenhados na base do improviso e à flor da pele. Falas decoradas de peças desastradas, rimas indissolúveis em páginas e mais páginas de papel, o sabor preferido do chá da madrugada, a primeira melodia da manhã, o tato da pele com relevo intransponível.

Qual é a proporção disso tudo?


Ashes to ashes, dust to dust, nossas vidas cabem em uma caixinha também. Mas essas aqui, invés de trágicas, aspiram sorrisos, inspiram lembranças saltitantes, ressoam como a mais doce nota sustentada no piano, tem um elixir de lírios com gérberas, e uma saudade do tamanho de um oceano inteiro.