Em algum momento, eu fui avisada que precisaria de óculos. Lentes, mais grossas que eu já imaginara. Correção.
Naquele ponto, eu era aquela adolescente tipicamente desengonçada, procurando por si mesma, já que a identidade ainda não passada de um documento com um número. Não era bonita, usava aparelho, consumia muitos livros de uma só vez e acreditava que todo drama seria o maior desastre da minha vida.
Aí veio esse dia em particular, em que o médico me falou, em palavras claras — as quais eu gostaria profundamente que tivessem sido ditas em palavras difíceis, sem significado aparente para minha cabeça de criaturinha à beira de mais uma crise rebelde —, você precisa de óculos.
Existe essa sensação de observar e, de fato, pensar enxergar tudo o que se vê. Você pensa que vê tudo. Com perfeita sanidade, consciência. Total razão e claridade. Tudo é eternamente óbvio e consideravelmente definido. Até o momento que melhora.
Esse incrível momento que você coloca essas correções na frente das suas pupilas e o que antes eram manchas verdes, agora se tornam folhas. Com diferentes tonalidades e personalidades, individualidades. O momento em que você percebe que precisava daquelas lentes há tanto tempo, que você tinha esquecido como era ver, no topo de cada árvore, folha por folha.
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Todas essas cores do céu em questão de cinco minutos. Todas as dezenas de músculos que uso para simplesmente sorrir. Todas as dobras do lençol sobre a pele nos primeiros raios do Sol da manhã. Exatamente isso.
Eu sempre presenciei e vivi encantada pelo pôr-do-sol. Esse espetáculo gratuito diário. Esse agradecimento por tudo que vi, senti, respirei em um dia. Eu nem sempre gostei do meu sorriso. Especialmente na fase da adolescência, com aquele aparelho horrível, feito para chamar a atenção. E eu sempre amei essa sensação de lar ao sentir, logo pela manhã, todos os centímetros quadrados de lençóis e cobertores que me envolveram durante toda a noite. A agradável sensação de acordar porque sim, e ficar envolta pelos lençóis e cobertores também porque sim. Porque mais um dia entra pela janela todas as manhãs e minha maior vontade foi sempre sentir. Tudo. Inclusive os lençóis em minha pele, as dezenas de músculos que movo simplesmente por sorrir, ou o conforto dos últimos raios de Sol do dia.
Mas aí chegaram esses novos óculos. Lentes corretivas que me fizeram dar uma olhada a mais em tudo ao meu redor e admirar como eu tinha me acostumado em ver apenas o lençol, o sorriso e o sol se pondo no horizonte. E que não é somente isso.
Assim como aquela primeira vez que vi, de fato, todas as folhas na copa de cada árvore na mata próxima à minha casa, percebo tudo o que estava perdendo.
Como o Sol, quando se põe, permite que, pouco a pouco, toda a cidade se ilumine e crie sua própria vida, cada ponto de luz por vez. Como cada poste de luz que ilumina cada rua, beco, viela, leva a um diferente destino, ou como podem convergir e levar ao ponto de início, ainda que depois de algumas curvas e esquinas diferentes. E esse mesmo Sol, no crepúsculo de todos os dias, faz as ondas do mar se acalmarem, o fios de cabelo se movimentarem, os carros passarem como um fluxo sanguíneo.
Como o sorriso acaba por esconder a pontinha arrebitada do nariz, o cantinho levantado dos olhos — esses, que ficam tão iluminados e cheios de vida que poderiam iluminar uma cidade inteira. Ou o fazem quanto refletem uma cidade inteira na mesma pupila que, vez ou outra, necessita de reparos. Esconde também covinhas no meio das bochechas, e escondem uma alegria maior que o normal ao se ter um motivo de sorrir no meio de uma semana que parece, a la adolescent, a pior semana de uma vida inteira. O sorriso também, por si só, esquece de uma risada doce, sonora, que enche a sala de vida. O sorriso também pode esconder lágrimas, ou provocá-las. E como o sorriso, com todas as dezenas de músculos que se movem somente para formá-lo, encanta, empatiza e faz apaixonar.
Como lençóis, coloridos ou monocromáticos, feitos da mais pura seda ou da mais divertida malha, tem toda essa poesia escondida a cada nova dobra descoberta. Como podem esconder mais ainda, ou revelar detalhes jamais percebidos. Como lençóis são fotogênicos e como a memória gosta de lençóis.
You're my glasses.