30.12.14

Let it happen

I wish you bluebirds in the spring
To give your heart a song to sing
And than a kiss
But more than this
I wish you love

Primavera sempre me pareceu ser o suspiro do ano. Aquele momento que parece-nos faltar o ar, e precisamos de uma longa inspiração para um fôlego final. Ou ainda, que a primavera sempre me pareceu, mais que árvores florescendo, renovação, uma vontade da vida deixar o final de ano — sempre sem tempo, sem fôlego, sem motivação, sem paciência — mais bonito. Mais contente. Mais “pare, olhe, pense, calma”. Mais calma.

Primavera sempre me pareceu uma música de jazz. Aquele compasso forte, mas com um ritmo flexível estruturado com solos individuais e em conjunto baseados em melodias básicas e acordes-padrão, com um idioma harmônico altamente sofisticado. Quê? Exatamente.

Primavera, para mim, sempre foi aquela estação que tem o seu clima temperado como base, com vestidos leves acompanhados de casaquetos, que pode (e deverá!) trazer fortes emoções, contrastando com todo o renovado colorido que a vida adquire. Em suma, a primavera — e o que passa a fazer muito sentido — é a estação que nos deixamos apaixonar, que faz-nos apaixonar e nos re-apaixonar pelo o que está em nosso redor. Companhias, melodias, paisagens. Ritmos, rimas e risadas.

Primavera, acima de tudo, é a antecipação do momento do ano que conseguimos contar nos dedos quantas semanas faltam para o novo ano. Primavera é, junto com a antecipação, um aperitivo de todos os desejos que serão pronunciados assim que a estação virar e os 365 dias começarem do zero, novamente. Primavera é, nesse ínterim, a prévia paixão de tudo que está por vir, promete vir, e também de tudo aquilo que pode permanecer também.

And in july a lemonade
To cool you in some leafy glade
I wish you health
And more than wealth
I wish you love

Com o passar dos anos, aprendi muito o que é o amor próprio. Aquele amor próprio prosado, que faz bem, que nos embeleza, que nos dá arrepio ao acordar bem, saber que está bem, e deixar-se ficar bem.

Certa vez, ouvi por aí que o mais bonito de qualquer amor, é aquele que nos deixar amarmos a si próprio, acima de tudo. Que nos permite ficarmos bem, para então completarmos outro alguém. Isso passou a fazer todo o sentido quando, ao vir morar com o silêncio, percebi que a casa inteira estava cheia de mim mesma — e isso não era ruim. Mais que isso, era incrível poder completar o espaço inteiro, para contemplar a riqueza dos momentos na companhia do outro alguém.

E mais do que toda essa conversa de amor próprio faz bem, que cura todos os males, que nos deixa de alma preenchida, amor próprio nos faz perceber que a companhia mais constante que possuímos somos nós. Digo, amizades vêm, vão, e sim, algumas de fato permanecem, mas quando voltar pra casa, e o silêncio te envolver, a voz que estará ali é a sua.

Acima de tudo, desejo-te amor próprio. Porque, depois, da tua plenitude, cuido eu. 

My breaking heart and I agree
That you and I could never be
So with my best
My very best
I set you free

Um dos maiores aprendizados da vida é saber se permitir. Permitir-se soltar a mão dos móveis e paredes que nos apóiam quando ainda aprendemos a dar os primeiros passos independentes; se permitir ficar mais tempo fora de casa ainda na pré-adolescência, “esquecendo" de todas as palavras ditas por nossos pais; permitir-se pensar que sim, sempre haverá o depois para nos desculparmos do erro; permitir-se arriscar mais que nunca ao trocar o curso (que já estava quase acabando!) da universidade; permitir-se ser mais feliz em busca do desconhecido. Lançar-se ao longe, entrar no túnel sem ter no horizonte, a saída.

Na verdade, não é um dos maiores aprendizados. E sim, um dos nossos grandes medos. Medo do que acontecerá se nos depararmos com o inesperado, com o novo — como reagiremos se cairmos, ou errarmos?. Everybody needs a place it shouldnt be inside of someone else”.

Permitir-se soltar a mão de outras mãos. É o que mais me doeu até hoje, e também é o que mais me assustou. Eu lembro quando saí da casa dos meus pais para a mais incrível aventura que já tive até hoje — nada como sentir a conquista não do mundo, mas do outro lado do oceano! —, lembro quando saí de casa de vez, fugindo de toda presença para aprender a conviver com o silêncio de uma casa vazia, assim como lembro de todas as vezes que soltei a mão daqueles que me moldaram para ser o que sou hoje.

I wish you shelter from the storm
A cozy fire to keep you warm
And most of all
When snowflakes fall
I wish you love

É engraçado quando unimos diferentes referências que fazem total sentido. Essa frase, quando ouvi, remeteu-me imediatamente a um trecho da obra de Elizabeth Gilbert, o Eat, Pray, Love. Em dado momento, uma das personagens compartilha sobre o seu ponto de vista sobre almas gêmeas.

As pessoas acham que a alma gêmea é o encaixe perfeito, e é isso que todo mundo quer. Mas a verdadeira alma gêmea é um espelho, a pessoa que mostra tudo que está prendendo você, a pessoa que chama a sua atenção para você mesmo para que você possa mudar a sua vida. Uma verdadeira alma gêmea é provavelmente a pessoa mais importante que você vai conhecer, porque elas derrubam as suas paredes e te acordam com um tapa. Mas viver com uma alma gêmea para sempre? Não. Dói demais. As almas gêmeas só entram na sua vida para revelar a você uma outra camada de você mesmo, e depois vão embora.

Por isso eu não acredito em almas gêmeas. Ou melhor, eu acredito, mas no exato sentido desse trecho. Mas, enquanto a busca é pela plenitude em outro alguém, o meu grande desejo é que encontremos a maior quantidade possível das nossas almas gêmeas que estão por aí. Essas criaturas que nos tirarão o sono, que nos ensinarão o inimaginável, e deixarão saudades incomensuráveis.

Unindo-se a isso, lembro-me da primeira vez que eu vi a neve. Aqueles perfeitos flocos caindo do céu com tanta leveza que até lágrimas pareceriam grosseiras ao seu lado. Era justamente final de novembro, e as temperaturas estavam baixíssimas no hemisfério norte. Mais que isso, era frio demais para uma brasileira que tinha recém aprendido a pronunciar o nome da cidade onde vivia.

Quando eu vi aquele pequenino floco pousar com tanta doçura na minha luva, minha vida tornou-se mais leve. Ou melhor, passei a prezar muito pela leveza na minha rotina. Mais que isso, percebi a presença das almas gêmeas, valorizei suas presenças ao máximo, enquanto elas estiveram por perto.

Mais que isso, descobri, além das almas gêmeas, a plenitude, a complementação, o eterno.

And most of all
When snowflakes fall…

Existe um poema do qual eu gosto muito, que diz que no final da noite, tudo o que fica são os rostos limpos de toda a maquiagem e os lençóis brancos agora amassados. Ele se liga muito ao que sempre penso ao olhar para o final do ano — ao olhar pra trás. O que fica, de fato, são os lençóis amassados para a próxima manhã, o novo dia, assim como a pele desvestida de todas as camadas de aprendizado e desenvolvimento que vieram em trezentos e sessenta e cinco dias.

Mais que isso, o ano novo vem com todas as promessas, juras e expectativas dignos de uma vida inteira. Uma reviravolta, um novo começo. Ou, mais que isso, da continuidade do que merece ser perene.

O final de ano já chegou, e a primavera está partindo, com toda sua leveza, calma, seus suspiros e suas cores. Que todos os desejos do mundo sejam poucos perto do que o ano que vem nos reserva, seja sonhos, realizações, almas gêmeas, plenitude, amor próprio, paciência, perenidade, prosperidade, sucesso, amor.

Que quando os foguetes estourarem no céu, sempre nos lembramos que a renovação, embora figurativamente ocorra uma vez ao ano, pode acontecer a cada amanhecer - é tudo uma questão de ponto de vista. Que nós, embora não eternos, possamos estender uma noite, tornando-a válida por uma vida inteira. E que, quando 2015 finalmente aparecer no calendário, que as reticências permaneçam — que o final nunca chegue.