I wish you bluebirds in the spring
To give your heart a song to sing
And than a kiss
But more than this
I wish you love
Primavera sempre me pareceu ser o suspiro do ano. Aquele momento que
parece-nos faltar o ar, e precisamos de uma longa inspiração para um fôlego
final. Ou ainda, que a primavera sempre me pareceu, mais que árvores
florescendo, renovação, uma vontade da vida deixar o final de ano — sempre sem
tempo, sem fôlego, sem motivação, sem paciência — mais bonito. Mais contente.
Mais “pare, olhe, pense, calma”. Mais calma.
Primavera sempre me pareceu uma música de jazz. Aquele compasso forte,
mas com um ritmo flexível estruturado com solos individuais e em conjunto
baseados em melodias básicas e acordes-padrão, com um idioma harmônico
altamente sofisticado. Quê? Exatamente.
Primavera, para mim, sempre foi aquela estação que tem o seu clima
temperado como base, com vestidos leves acompanhados de casaquetos, que pode (e
deverá!) trazer fortes emoções, contrastando com todo o renovado colorido que a
vida adquire. Em suma, a primavera — e o que passa a fazer muito sentido — é a
estação que nos deixamos apaixonar, que faz-nos apaixonar e nos re-apaixonar
pelo o que está em nosso redor. Companhias, melodias, paisagens. Ritmos, rimas
e risadas.
Primavera, acima de tudo, é a antecipação do momento do ano que
conseguimos contar nos dedos quantas semanas faltam para o novo ano. Primavera
é, junto com a antecipação, um aperitivo de todos os desejos que serão
pronunciados assim que a estação virar e os 365 dias começarem do zero,
novamente. Primavera é, nesse ínterim, a prévia paixão de tudo que está por
vir, promete vir, e também de tudo aquilo que pode permanecer também.
And in july a lemonade
To cool you in some leafy glade
I wish you health
And more than wealth
I wish you love
Com o passar dos anos, aprendi muito o que é o amor próprio. Aquele amor
próprio prosado, que faz bem, que nos embeleza, que nos dá arrepio ao acordar
bem, saber que está bem, e deixar-se ficar bem.
Certa vez, ouvi por aí que o mais bonito de qualquer amor, é aquele que
nos deixar amarmos a si próprio, acima de tudo. Que nos permite ficarmos bem,
para então completarmos outro alguém. Isso passou a fazer todo o sentido
quando, ao vir morar com o silêncio, percebi que a casa inteira estava cheia de
mim mesma — e isso não era ruim. Mais que isso, era incrível poder completar o
espaço inteiro, para contemplar a riqueza dos momentos na companhia do outro
alguém.
E mais do que toda essa conversa de amor próprio faz bem, que cura todos
os males, que nos deixa de alma preenchida, amor próprio nos faz perceber que a
companhia mais constante que possuímos somos nós. Digo, amizades vêm, vão, e
sim, algumas de fato permanecem, mas quando voltar pra casa, e o silêncio te
envolver, a voz que estará ali é a sua.
Acima de tudo, desejo-te amor próprio. Porque, depois, da tua plenitude,
cuido eu.
My breaking heart and I agree
That you and I could never be
So with my best
My very best
I set you free
Um dos maiores aprendizados da vida é saber se permitir. Permitir-se
soltar a mão dos móveis e paredes que nos apóiam quando ainda aprendemos a dar
os primeiros passos independentes; se permitir ficar mais tempo fora de casa
ainda na pré-adolescência, “esquecendo" de todas as palavras ditas por
nossos pais; permitir-se pensar que sim, sempre haverá o depois para nos
desculparmos do erro; permitir-se arriscar mais que nunca ao trocar o curso
(que já estava quase acabando!) da universidade; permitir-se ser mais feliz em
busca do desconhecido. Lançar-se ao longe, entrar no túnel sem ter no
horizonte, a saída.
Na verdade, não é um dos maiores aprendizados. E sim, um dos nossos
grandes medos. Medo do que acontecerá se nos depararmos com o inesperado, com o
novo — como reagiremos se cairmos, ou errarmos?. “Everybody needs a place — it shouldn’t be inside of someone else”.
Permitir-se soltar a mão de outras mãos. É o que mais me doeu até hoje,
e também é o que mais me assustou. Eu lembro quando saí da casa dos meus pais
para a mais incrível aventura que já tive até hoje — nada como sentir a
conquista não do mundo, mas do outro lado do oceano! —, lembro quando saí de
casa de vez, fugindo de toda presença para aprender a conviver com o silêncio
de uma casa vazia, assim como lembro de todas as vezes que soltei a mão
daqueles que me moldaram para ser o que sou hoje.
I wish you shelter from the storm
A cozy fire to keep you warm
And most of all
When snowflakes fall
I wish you love
É engraçado quando unimos diferentes referências que fazem total
sentido. Essa frase, quando ouvi, remeteu-me imediatamente a um trecho da obra
de Elizabeth Gilbert, o Eat, Pray, Love. Em dado momento, uma das
personagens compartilha sobre o seu ponto de vista sobre almas gêmeas.
As pessoas acham que a alma gêmea é o encaixe perfeito, e é isso que todo mundo quer. Mas a verdadeira
alma gêmea é um espelho, a pessoa que mostra tudo que está
prendendo você, a pessoa que chama a sua atenção para você mesmo
para que você possa mudar a sua vida. Uma verdadeira alma gêmea é provavelmente a pessoa mais importante que você
vai conhecer, porque elas derrubam as suas paredes e te acordam com um tapa.
Mas viver com uma alma gêmea para sempre?
Não. Dói demais. As almas gêmeas só entram na sua vida para revelar a você uma outra
camada de você mesmo, e depois vão embora.
Por isso eu não acredito em almas gêmeas. Ou melhor, eu acredito, mas no
exato sentido desse trecho. Mas, enquanto a busca é pela plenitude em outro
alguém, o meu grande desejo é que encontremos a maior quantidade possível das
nossas almas gêmeas que estão por aí. Essas criaturas que nos tirarão o sono,
que nos ensinarão o inimaginável, e deixarão saudades incomensuráveis.
Unindo-se a isso, lembro-me da primeira vez que eu vi a neve. Aqueles
perfeitos flocos caindo do céu com tanta leveza que até lágrimas pareceriam
grosseiras ao seu lado. Era justamente final de novembro, e as temperaturas
estavam baixíssimas no hemisfério norte. Mais que isso, era frio demais para
uma brasileira que tinha recém aprendido a pronunciar o nome da cidade onde
vivia.
Quando eu vi aquele pequenino floco pousar com tanta doçura na minha
luva, minha vida tornou-se mais leve. Ou melhor, passei a prezar muito pela
leveza na minha rotina. Mais que isso, percebi a presença das almas gêmeas,
valorizei suas presenças ao máximo, enquanto elas estiveram por perto.
Mais que isso, descobri, além das almas gêmeas, a plenitude, a
complementação, o eterno.
And most of all
When snowflakes fall…
Existe um poema do qual eu gosto muito, que diz que no final da noite,
tudo o que fica são os rostos limpos de toda a maquiagem e os lençóis brancos
agora amassados. Ele se liga muito ao que sempre penso ao olhar para o final do
ano — ao olhar pra trás. O que fica, de fato, são os lençóis amassados para a
próxima manhã, o novo dia, assim como a pele desvestida de todas as camadas de
aprendizado e desenvolvimento que vieram em trezentos e sessenta e cinco dias.
Mais que isso, o ano novo vem com todas as promessas, juras e
expectativas dignos de uma vida inteira. Uma reviravolta, um novo começo. Ou,
mais que isso, da continuidade do que merece ser perene.
O final de ano já chegou, e a primavera está partindo, com toda sua
leveza, calma, seus suspiros e suas cores. Que todos os desejos do mundo sejam
poucos perto do que o ano que vem nos reserva, seja sonhos, realizações, almas
gêmeas, plenitude, amor próprio, paciência, perenidade, prosperidade, sucesso,
amor.
Que quando os foguetes estourarem no céu, sempre nos lembramos que a renovação, embora figurativamente ocorra uma vez ao ano, pode acontecer a cada amanhecer - é tudo uma questão de ponto de vista. Que nós, embora não eternos, possamos estender uma noite, tornando-a válida por uma vida inteira. E que, quando 2015 finalmente aparecer no calendário, que as reticências permaneçam — que o final nunca chegue.
Que quando os foguetes estourarem no céu, sempre nos lembramos que a renovação, embora figurativamente ocorra uma vez ao ano, pode acontecer a cada amanhecer - é tudo uma questão de ponto de vista. Que nós, embora não eternos, possamos estender uma noite, tornando-a válida por uma vida inteira. E que, quando 2015 finalmente aparecer no calendário, que as reticências permaneçam — que o final nunca chegue.