"Tinha escrito, com um preto quase inapagável: Vá para a trás do prédio, no horário que nossas mães estarão tricotando fofocas. Espero-te ao lado roseiral da Dona vizinha da frente. Estarei com a camisa do futebol, não se assuste. Quero te ver novamente, com vestido, com teu cheiro, com os lábios tão carmins quanto às rosas, com tua serenidade de colher os céus. Do seu João. João era dos meninos tímidos, magricelinhos, que jogava futebol nem sei a causa. Chegava primeiro na escola, sentava na frente. Tremia, tremia para me beijar. Logo eu, menina sapeca de pular os muros, roubar os lanches e contar controvérsias. Eu, Luísa dos pés de manga, vivia plantada em cima de um. Minha mãe gritava, meu pai puxava o cinto, aí eu pulava. Mas pense numa coisa saborosa é ficar em cima de uma árvore gloriosa, vendo o sol dá um adeus bonito. Eu Luísa, ele João. Nem nos nomes nos combinamos, mas sei lá ele tem um jeitinho que será um ótimo pai, um ótimo amante. Sempre preocupado, com as mãos nos cabelos dourados, a voz tremida, a roupa engomada. Tão bonito com os dentes de aparelho. Ninguém sabe dos nossos encontros, ninguém pode saber. Caçoarão dele e de mim. Logo dele, coitado cheio de timidez. Eu e ele crescemos juntos. Eu dando tapa na testa dele e mandando ele refazer as casinhas de areia. No auge da puberdade nos afastamos, ele só andava com meninos e eu só com as meninas. Colocamos um muro entre nós dois. Daí as férias de verão chegaram o pessoal foi acampar e só sobrou, eu e ele. Voltamos a sair juntos, tomando um sorvete aqui, andando de bicicleta pela ladeira grande, jogando bolinha de gude. Um dia fomos ao cinema, lá no fim em um querer maluco ele puxou a minha mão, cheio de suor, fizemos um poço de nervosismo nas poltronas. Eu olhava para ele, ele olhava para mim e depois de muito bafafá ele me puxou. O filme foi deixado de lado, as vergonhas também. Meu primeiro beijo, tão tremido que quase caía para o queixo. Ai, ai, ai… Ainda vou casar com esse tal de João."Trechos para João Alguém, Layla G.
21.11.16
at 9:31 PM