4.10.10

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Por entre folhas secas de outono, perderam a conta dos passos. Nos bancos calados entre árvores de histórias centenárias, repetiram os versos das poesias e melodias mais ouvidas. Diante de dias gélidos, perderam o rumo entre tantos estreitos caminhos na cidade antiga. Em telefonemas em noites de luar, encararam o mesmo horizonte entrelado, mantido em segredo. Nas brincaderias da manhã, sorriam em silêncio para não atrapalhar a mesa ao lado. No dia de ir ao parque, imaginaram diversas versões do futuro. Nos finais de semana, faziam promessas nos diferentes lugares que visitavam. Madrugadas adentro, ouviam a playlists intermináveis, culpa das semelhanças entre os dois.
Sozinhos, esperavam impaciente o telefone tocar. Prestavam atenção em suas atividades pensando na hora de voltar pra casa. Liam jornais e revistas com os amigos e desconhecidos, mas planejavam secretamente programas para o próximo feriado.
Juntos, planejavam futuros acompanhados de xícaras de café na sala. Partilhavam histórias sem amigos em comum. Riam alto de piadas que ninguém entenderia. Caminhavam contando parágrafos inteiros sobre as suas respectivas semanas. Jantavam enrolados em cobertores, sentados em frente a lareira da sala. Encaravam o relógio supresos com a pressa do tempo para passar. Saíam de casa sem destino e voltavam com maus amigos encantados por suas histórias.
Reliam romances antigos mesmo não acreditando em romances, mesmo vivendo um romance. Ouviam atenciosamente novas músicas das bandas preferidas e criticavam duramente bandas não tão boas assim. Iam a shows alternativos e desconhecidos e retornavam conhecendo a banda inteira.
No silêncio de bibliotecas fingiam ser desconhecidos só para se reapaixonarem. No escuro do cinema, soltavam as mãos para que, ao final do filme, pudessem ser apresentados novamente um ao outro, dizer o quão esplêndida foi a companhia e marcar a próxima ida ao cinema. Viajavam sozinhos para não se esquecer de enviar uma carta para o endereço que sabiam de cor. No churrasco dos amigos, ele fingia não conhecê-la, apenas para repetir o eterno ‘você vem sempre aqui?’, e fazê-la sorrir novamente.
Mantinham segredo para supreender mais uma vez. Gostavam da distância para sempre alertar que sentem falta. Permaneciam em silêncio para lembrar do conforto da voz familiar quando o silêncio era quebrado. Erravam propositavelmente o sabor da pizza de domingo de noite só para acertar na sobremesa predileta, dos dois.
Gastavam horas longe para relembrar do quanto o reencontro é melhor. Esqueciam-se um do outro para, depois, lembrar o quanto é bom amar.