No meio da madrugada, o choro de criança me tira o sono; um sono que parecia ser tão denso.
O quarto ao lado está inquieto, passos agitados parecem subir pela parede enquanto meus olhos se acostumam com a escassa luz que há agora.
Não tenho versos em mente, não fui acordada no meio de um conto de fadas, nem me salvaram do meu próprio pesadelo; não vivo sonho algum.
É paradoxo a sensação de sorrir voluntariamente enquanto seguro lágrimas; a sensação de querer ir, mesmo ficando. A sempre idêntica sensação de descuido aos detalhes, quando se passa, pela trigésima vez, a mesma cena em sua mente.
Escrevo madrugada adentro, o não sou a única acordada nesse corredor; palavras sussurradas aparecem contrastando com o vazio de fora da janela e, entregue à inconstância da falta de um relógio no recinto, uma aeronave deixa sua marca no ouvido das estrelas que nos observam sem reclamar.
Ao fundo, talvez no mais afastado quarto do último andar, ouve-se uma doce e sonolenta canção de ninar – o choro infantil cessara na segurança do colo materno exausto.
Retorno ardentemente ao conforto do cobertor, o chão gelado me tirou o último pingo de sonolência.
Um abraço me esperou durante todas as linhas escritas e me sinto em casa quando, novamente, o silêncio nos cerca.
Sem precisar de sonhos para sorrir, durmo nos braços da minha realidade preferida; estou aonde sempre pertenci.
Como deve ser.