3.11.10

footsteps


Acordou cedo, colocou o casaco predileto, o jeans predileto, o tênis predileto. Deu um jeito no cabelo bagunçado e na cara amassada. Seus amigos esperavam no lugar de todos os dias, olhares cansados daqueles que precisavam de férias novamente. Era um dia bom, todos se animavam com a idéia de ser sexta-feira.
No intervalo, haviam preparado, para ela, uma surpresa; a idéia que tiveram a algum tempo atrás tinha virado realidade em seu último momento de convivência ali, com todos. Uma rotina que se encerrava.
Foram provas e mais provas pela manhã, seu alívio ao ouvir o último sinal que ouviria durante muito tempo transpareceu em seu rosto, um sorriso ao mesmo tempo que tudo apertou dentro de si.
No almoço, mais uma surpresa; todos os seus preferidos estavam ali. Rostos que sabia de cor, rostos que a viam em todos os humores, rostos que possuem marcas em sua história. Mesmo com todos os problemas, eles estavam juntos. Ela sorriu quando quis ficar ali por mais tempo que podia.
Os passos foram juntos até o último minuto que puderam ir juntos; roubaram lágrimas tímidas dela com palavras. Abraços que sentiria saudade, vozes que não a largariam jamais, rostos que conhecia até no escuro. Palavras amigas, sentimentos revelados e um coração apertado foram deixados ao rumo de mais um ramo de provas. Sozinha.
As paredes pareciam se fechar contra ela mesma, quando lembrou do que presenciara logo ali, do outro lado da rua. Quis sair correndo, fazer tudo de novo, ter mais tempo.
Partiu para uma última volta naquele lugar que havia sido sua segunda casa por toda a sua vida; até que sentiria falta. Correria à parte, teve tempo pra tomar sorvete no banco preferido da cidade ao observar o trânsito.
Contava os segundos pra encontrar quem mais lhe faria falta. Programas de sempre, não seria no último dia que sairiam de sua rotina. Tudo parecia normal, mais um dia com café, risadas, reclamações sobre rotinas, risadas sobre detalhes.. Até perceberem o tempo passar. A vontade de ficar. De não largar. De voltar atrás. De evitar ter que falar as últimas palavras. Evitar o último abraço. Evitar olhar pra trás. Evitar.
Ela saiu de repente, correu contra o tempo; estava atrasada. Não olhou pra trás, foi forte. Mas agradeceu quando sentiu sua mão apoiada em outra novamente, por curtos dois minutos. Curtos demais. Atravessou a rua, olhou pra trás. Uma visão que carrega até hoje, e não se arrepende.
Desabou como nunca. Não aquietou até chegar no aconchego da cama. Dormiu como uma criança; sonhou com os anjos que a acompanharam durante aquele dia, anjos que fizeram (e fazem) parte da sua vida.
De repente, sentiu os raios de sol em seu rosto.
Acordou, saiu de casa e não olhou pra trás.