24.4.12

da ficção: parte um

Lembra quando nos perdemos na floresta ao lado da sua casa? Era pra ser apenas uma caminhada de, no máximo, uma hora e, quando percebemos, o dia estava no seu final, o sol já estava se despedindo e nós, sem uma lanterna para encontrarmos um caminho de volta pra casa. Eu, com esse meu jeito racional demais - quando deveria pensar menos e simplesmente viver mais -, tinha me distraído com esse teu sorriso que cobre o rosto inteiro, essa tua mania de sempre querer ter razão sobre tudo e o teu perfume que é teimoso, não larga, nunca.
Até o dia que largou. Todo mundo sabe o que tem ao seu lado, só que ninguém acredita que podemos perdê-lo E, ainda assim, apenas pelas lembranças que restaram, me dá uma vontade tremenda de cantar, sair dançando, sabendo que você pode estar em qualquer lugar, em qualquer horário; inclusive aqui por perto e agora.
Arrependimento? Não. Foi eterno enquanto durou, gosto de repetir isso, é verdade. Como um texto que acabou de um jeito inesperado, acabamos rumando para caminhos diferentes. Mas fico feliz de tudo, inclusive de quando nos perdemos. Ainda não te contei, mas no momento que nos olhamos, sabendo que ninguém tinha a resposta para 'e como vamos voltar?', eu estremeci. Senti um certo medo. Quem sabe ali eu deveria ter te falado o que eu sentia, pra valer.
Deveria ter aproveitado aquele teu olhar tão concentrado, tão sério, olhando pra mim e ter te dito que tudo estava valendo a pena, que o mundo poderia acabar que eu estaria em absurda alegria, que você poderia me levar pra qualquer lugar e, ainda assim, eu estaria bem, porque estaria contigo. Poderia ter te falado que a nossa amizade era a mais especial naquele momento, que o teu perfume não largava de mim e eu queria que não largasse nunca!, que eu esperava ansiosamente por cada momento ao teu lado, que teus olhares me faziam acreditar em mim mesma, que você me inspirava todos os dias, em todas as linhas que preenchia no caderno que tu me desses no meu aniversário.
Mas não falei, porque senti medo. Medo daqueles de verdade, sabe? Medo que descubram a verdade. Medo que você visse, mesmo que só lá no fundo, que eu estava abrindo mão de tudo, pouco a pouco. Que eu estava ausente demais, que eu estava em outros lugares ao mesmo tempo que estava ao teu lado. Não tenho certeza em qual ponto tudo desencantou, mas passou. Que eu tinha a sensação que algo dentro de mim tinha saído de um tipo de gaiola e alçado vôo, para bem longe, sabendo que a liberdade era o melhor remédio, era o mais atrativo, era o que eu mais queria. Eu senti esse medo, naquele instante.
E isso era tudo que eu deveria ter falado quando pude, e não sair correndo, sem olhar pra trás, sem querer voltar atrás.
Teu sorriso ainda me intimida, tua pseudo-razão ainda faz falta e teu perfume ainda me flagra, às vezes. Mas sei que estamos melhores agora. E sei que estás bem. Era isso que eu sempre desejei pra você. A maior felicidade do mundo.
Hoje te vi andando no outro lado da rua, com a menina mais linda que já vi ao teu lado.
Me senti orgulhosa.
Sorri sozinha.
Senti tua falta.

 

trilha sonora e inspiração:
http://www.youtube.com/watch?v=Mn-toQNxlLI