(rascunho)
Bastou um céu estrelado confundindo-se com o oceano para entendermos a plenitude da vida que estávamos vivendo. A noite era agradável, a Lua encontrava-se ausente; as ondas eram calmas, ainda que constantes. Os batimentos cardíacos não se sobressaíam e as várias vozes no mesmo ritmo de um violão mostravam a cumplicidade. A fogueira estralava, marschmallows derretiam-se, piadas eram contadas, histórias eram descobertas, saudades eram sentidas: ao mesmo tempo que estávamos em família, todos ali estavam longe das suas. Foi questão de tempo até encontrar-me deitada na areia, longe o suficiente para não ouvir mais vozes - que haviam ser tornado em um sussurro -, apenas as ondas quebrando, os pássaros cantando, o mundo respirando. O céu encontrava-se estupendo. Não havia Lua, mas a via Láctea abrira-se pra nós. Estrelas cadentes, planetas, constelações; tudo estava vivo, e nunca antes tão bonito. As palavras me fugiram de imediato - a beleza dos cosmos é indescritível. Sabia que o pensamento que tinha tentado - em vão - esquecer durante todo o dia ali me espancaria no estômago novamente.
E foi exatamente o que aconteceu. A visão ficou turva, o incômodo aumentou, os braços penderam no vazio, o vento ficara mais frio que antes - a falta chegara. O pedaço de mim que encontra-se além-mar pareceu estar mais longe que nunca. Por muito mais tempo que eu já vivera, esperara, quisera. Senti um desconforto irremediável e decidi andar. Fui na direção oposta das luzes, o escuro já estava confortável aos meus olhos. O silêncio rodeou-me por completo e senti que somos, literalmente, um mísero grão de areia nesse universo inteiro. Perguntei-me se alguém já sentiu-se assim também. Meus passos eram logo apagados pela maré baixa, mas meus pensamentos iam concretizando-se cada vez mais. A saudade é mútua, pensei; não estou sozinha, ainda que desacompanhada na caminhada até o final da praia.