28.7.15

Nas escadarias do teatro

De volta à terrinha, o teatro da cidade foi o monumento que permeou boa parte da minha vida. Ou a minha vida inteira, enquanto habitante da terrinha. No sentido de que desde que me entendo por gente, foram pelos corredores, pela plateia e pelos lances de escada que passei dias, tardes e noites correndo e inventando histórias de reis e princesas.
Foi no teatro da cidade que vi o sol nascer pela primeira vez, foi no teatro da cidade que concluí capítulos da minha própria narrativa, e foi no teatro da cidade que tive conquistas de uma vida inteira. Aquelas escadas já viram meu sorriso mais tímido, minha risada mais alta, meu maior devaneio, o vôo mais alto da minha imaginação e a lágrima mais sincera.
E é por isso que hoje eu resolvi doar singelos parágrafos para os degraus que tanto já me ouviram falar, recitar, poetizar e contemplar.

Episódio 01. Já sei onde ir — ou: manual de instruções de como andar.

Quando ouço as primeiras notas de Chopin, o brilho nos meus olhos ainda podem ser comparados com o de quando ainda estava na infância. Digo, eu tive muita sorte em ter pais que gostavam de alternar histórias de reinos distantes com composições mais doces que pão de ló — e eu sei que família não se escolhe, mas eu não trocaria a minha por nada.
E foi com essa educação quase-sem-querer (ou foi tudo programado?) que eu, no auge dos meus três anos recém completados, olhei para meus pais com os olhos arregalados e as bochechas de tamanho desproporcional para o tamanho de mini me que eu tinha na época, afirmando que eu queria ser bailarina (ou 'baralina', como o vocabulário mandava).
Alguns meses depois, lá estava eu: de olhos arregalados, bochechas de tamanho desproporcional e.. de tutu. Aquela foi a primeira vez que atravessei os corredores do teatro até chegar à grande e principal sala de dança da construção inteira. O piso amadeirado, o espelho limpíssimo e as barras paralelas que eu mal alcançava — tudo aquilo tornara-se meu próprio reino.
Depois dessa primeira impressão, seguiram-se anos de tarde de segundas e quartas que lá estava eu: pontualmente, meia calça, coque, sapatilha e um coração repleto de sonhos. Mais que tudo isso, foram anos e anos entendendo como as notas, ao saírem de uma partitura, davam-me a deixa para as tornarem realidade, com a leveza, delicadeza e sutileza que exigiam. Foram semanas após semanas que eu aprendi a caminhar, saltitar, cair e reerguer-me, passando uma reinvenção do meu ser a cada final de ano, quando me despedia de mais um tema apresentado no espetáculo final e foram devidamente registrados para a eternidade nos degraus de entrada do teatro — onde aprendi que nota poderia ter minha caminhada.

Episódio 02. Já sei onde ficar — ou: sentir.

O teatro da cidade sempre teve essa localização incrível de ser perto o suficiente da escola que frequentei toda minha infância e adolescência, perto o suficiente de centros comerciais, edifícios do poder legislativo da cidade, ainda que distante o suficiente para que seu jardim jamais perdesse o charme silencioso, tornando a poluição sonora do centro urbano nada além de um zumbido distante, perto de tantos ecos de acordes tocados, cantados, dramatizados ou simplesmente ditos ali, naquele que parecia ser um mundo paralelo.
Por essa localização, durante diversos períodos do ano, muita coisa acontece por ali. Festivais, festas de rua, paralizações, devaneios. E por essa localização, eu também sempre estive por ali, nos seus arredores, como se flutuasse ao redor do centro gravitacional artístico que o palco principal carrega consigo.
Eu perdi as contas de segredos trocados nos bancos, nos degraus e nos corredores daquele prédio. Foram amantes proibidos, personagens fictícios, folhas de cadernos rasgadas, beijos roubados e versos esquecidos. Foram noites, tardes e manhãs de suspiros e corações partidos.
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Ao redor da fonte da praça na frente de toda a pomposidade arquitetônica existem quatro bancos. Um deles era o preferido do meu primeiro encanto. Sabe, quando a rebeldia bate na porta, na mente e na alma de um ser humano no auge dos seus 13, 14, 15 anos e alguém totalmente fora do seu círculo de amigos se torna seu principal confidente, companhia preferida. Ele tinha um isqueiro azul e um coração bondoso. E jamais deixou de ter um gosto musical de respeito.
Foi ele que me ensinou o que é ter insônia madrugada adentro pela playlist que toca e foi ele que me ensinou o que é querer aplaudir o pôr do sol. Todos os dias. Foi também ele que me ensinou o que é a ausência amarga, a juventude relâmpago, a arte do desapego e a ter orgulho de ser quem eu sou. E foi no nosso banco que tive de dizer até logo.
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O simples ato de passar rapidamente pela frente do teatro — seja de carro, de bicicleta ou caminhando rapidamente para não perder a hora — faz bem. O olhar fica mais contente, o coração mais leve. Faça chuva ou faça sol, o sorriso no canto da boca tende a aparecer por ali.
E foi num dia de chuva — na verdade, que começou com sol — que, depois de algum tempo, o ritmo constante dos batimentos dentro do meu peito falhou. Como numa quebra inesperada no ritmo de uma música, o moreno apareceu ali, no canto do jardim, onde mal dá pra se ouvir a música que toca em toda a extensão do teatro, e por onde passamos rapidamente, hoje em dia, levantando o olhar e esquecendo dos problemas e do trânsito caótico.
Depois de anos afastada do interior do teatro, foi em sua companhia que redescobri o interior da estrutura, e me redescobri também. Foram degraus e degraus de textos, cafés e composições. Foram projetos iniciados, completados e contemplados. Foram lances de escadas inteiras que me acomodaram para entender o que é fazer planos concretos — e todo o medo e incerteza que os acompanha — pra daqui a pouco.
Se um dia o teatro fora meu reino, agora ele se tornara o nosso quintal (e pra lá dele, 'era uma noite que não tem mais fim’) e, conforme dizia uma das músicas mais constantes nos fones de ouvido, aquele prédio era nosso centro de gravidade. E se um dia eu se quer me entendia, agora eu passara a entender o que é ter a companhia ideal para dividir uma plateia.
Até hoje tenho vontade de nos aplaudir em pé.
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Na minha rotina de hoje, estar dividida entre dois lares me priva de avistar o teatro da cidade na frequência que gosto. Mas felizmente o que é pra ser, de fato acontece. E hoje, ainda que esquecendo de diversas nuances que encontrei nos degraus escondidos das salas de dança, de música e dos auditórios, me sinto no privilégio de saber, ainda, tudo que está por trás da cortina.
Há não muito tempo atrás, me peguei duvidando do meu futuro — onde já se viu vivermos nessa sociedade onde, aos 18 anos de idade, precisamos decidir o que será de nós pelas próximas 80 primaveras? —, aonde eu estarei, o que farei, quem serei. E foi no meio dessa inquietação interna intensa que, colocando meus pés no chão novamente e obrigando-me a abrir meus olhos para o que eu estava vivendo ali, naquele instante, fui questionada no que eu já estava fazendo.
Explico: existe todo esse mundo de pessoas incríveis que gostam de compartilhar histórias. E ideias. E eu tive a honra de entrar pra esse universo paralelo — onde os jovens não decidem todo o resto das suas vidas, eles simplesmente vivem. Onde os adultos voltam a ser crianças. Onde se apaixonar pela criatividade e inovação é tudo que está na moda. Onde, uma vez que você faz parte, não há mais coragem para sair dali.
E foi no meio de todos esses talentos, ouvindo o que eles tinham e têm a dizer que me vi justamente não-fazendo mais planos e inventando peripécias para curto, médio e longo prazos, e simplesmente tentando decorar com a palma da mão a textura dos degraus do canto do palco, da poltrona do camarim, dos ângulos dos focos de luz.

Episódio 03. Agora só me falta sair — ou in my heart, I can fly.

Hoje eu vi mais uma dessas clássicas fotografias de formatura e conclusão de etapas das nossas vidas. Todos lindos, sorridentes. Em frente ao teatro. Aí me questionei porque as minhas fotografias também não têm a mesma construção como plano de fundo.
"Nada mais justo”, pensei — o que também me trouxe até aqui, de certa forma. Nada mais justo já que, depois que concluí a etapa escolar da minha vida, a primeira coisa que fiz foi me despedir da terrinha. Nada mais justo que finalizar minha residência na cidade com um porta retrato daqueles bonitos no lugar que sempre desenhou minha trajetória. Sempre fez parte da trilha sonora, da paisagem que lembro no final do dia.

Mas pera lá. Quem sabe era pra ser exatamente assim. Afinal, uma coisa que faz de mim quem eu sou aqui, hoje e agora, é a sede de mundo. A inquietação. O apego pelo novo.
Eu não gosto muito de falar que é destino, que estava escrito, que as coisas acontecem per se. Hoje, o retrato bonito que tenho é numa paisagem que fez sentido na hora, com as pessoas que eu escolhi — ou não — pra ser minha família. Pra chamar de lar. Pra voltar pra casa, vez ou outra. Quem sabe esse retrato com o teatro ao fundo será o que será tirado daqui a algum tempo, num devaneio maluco que a vida, um sonho ou outro alguém me aprontar.

Um devaneio: embora cada teatro tenha seu charme, nenhum será igual, para mim, ao da terrinha. Assim como nenhuma narrativa será tão minha quanto a minha.

Quem sabe, nesse retrato, eu esteja sozinha, ou acompanhada. Ele será noite, ou no entardecer. Ou no amanhecer. Quem sabe eu estarei com franja reta e olhos arregalados novamente, como da primeira vez que pisei ali. Quem sabe eu o tire somente para não esquecer do local que já foi minha casa, meu palco, meu reino, meu quintal. Quem sabe eu o retrate por ser minha paisagem diária. Nunca se sabe.

Mas se há algo que estará certamente retratado é o quanto as escadarias do teatro formaram quem eu sou hoje. Se tropeçar, há o corrimão para se segurar. Se faltar energia, senta um pouco; a respiração é a principal aliada da calma e do equilíbrio. Se faltar disciplina, relaxe — nada é como esperamos ou planejamos. Se o coração doer, sempre há o próximo ano, o próximo espetáculo. Se a mente hesitar, preste atenção nas notas que o pianista toca na sala no final do corredor, ele está vivendo o momento de agora, e você deveria fazer o mesmo. Se não der certo aqui, sempre haverão lances de escada para alcançarmos novos andares. Se der certo, também pegue as escadas — o novo pode ser muito divertido. Mas apesar de todos os pesares da preparação, a plateia vai estar em pé. E é isso que nos faz sorrir no final do espetáculo.