De volta à terrinha, o teatro da cidade foi o monumento que permeou boa
parte da minha vida. Ou a minha vida inteira, enquanto habitante da terrinha.
No sentido de que desde que me entendo por gente, foram pelos corredores, pela plateia
e pelos lances de escada que passei dias, tardes e noites correndo e inventando
histórias de reis e princesas.
Foi no teatro da cidade que vi o sol nascer pela primeira vez, foi no
teatro da cidade que concluí capítulos da minha própria narrativa, e foi no
teatro da cidade que tive conquistas de uma vida inteira. Aquelas escadas já
viram meu sorriso mais tímido, minha risada mais alta, meu maior devaneio, o
vôo mais alto da minha imaginação e a lágrima mais sincera.
E é por isso que hoje eu resolvi doar singelos parágrafos para os
degraus que tanto já me ouviram falar, recitar, poetizar e contemplar.
Episódio 01. Já sei onde ir — ou: manual de instruções
de como andar.
Quando ouço as primeiras notas de Chopin, o brilho nos meus olhos ainda
podem ser comparados com o de quando ainda estava na infância. Digo, eu tive
muita sorte em ter pais que gostavam de alternar histórias de reinos distantes
com composições mais doces que pão de ló — e eu sei que família não se escolhe,
mas eu não trocaria a minha por nada.
E foi com essa educação quase-sem-querer (ou foi tudo programado?) que
eu, no auge dos meus três anos recém completados, olhei para meus pais com os
olhos arregalados e as bochechas de tamanho desproporcional para o tamanho de mini
me que eu tinha na época, afirmando que eu queria ser bailarina (ou
'baralina', como o vocabulário mandava).
Alguns meses depois, lá estava eu: de olhos arregalados, bochechas de
tamanho desproporcional e.. de tutu. Aquela foi a primeira vez que atravessei
os corredores do teatro até chegar à grande e principal sala de dança da
construção inteira. O piso amadeirado, o espelho limpíssimo e as barras
paralelas que eu mal alcançava — tudo aquilo tornara-se meu próprio reino.
Depois dessa primeira impressão, seguiram-se anos de tarde de segundas e
quartas que lá estava eu: pontualmente, meia calça, coque, sapatilha e um
coração repleto de sonhos. Mais que tudo isso, foram anos e anos entendendo
como as notas, ao saírem de uma partitura, davam-me a deixa para as tornarem realidade,
com a leveza, delicadeza e sutileza que exigiam. Foram semanas após semanas que
eu aprendi a caminhar, saltitar, cair e reerguer-me, passando uma reinvenção do
meu ser a cada final de ano, quando me despedia de mais um tema apresentado no
espetáculo final e foram devidamente registrados para a eternidade nos degraus
de entrada do teatro — onde aprendi que nota poderia ter minha caminhada.
Episódio 02. Já sei onde ficar — ou: sentir.
O teatro da cidade sempre teve essa localização incrível de ser perto o
suficiente da escola que frequentei toda minha infância e adolescência, perto o
suficiente de centros comerciais, edifícios do poder legislativo da cidade,
ainda que distante o suficiente para que seu jardim jamais perdesse o charme
silencioso, tornando a poluição sonora do centro urbano nada além de um zumbido
distante, perto de tantos ecos de acordes tocados, cantados, dramatizados ou
simplesmente ditos ali, naquele que parecia ser um mundo paralelo.
Por essa localização, durante diversos períodos do ano, muita coisa
acontece por ali. Festivais, festas de rua, paralizações, devaneios. E
por essa localização, eu também sempre estive por ali, nos seus arredores, como
se flutuasse ao redor do centro gravitacional artístico que o palco principal
carrega consigo.
Eu perdi as contas de segredos trocados nos bancos, nos degraus e nos
corredores daquele prédio. Foram amantes proibidos, personagens fictícios,
folhas de cadernos rasgadas, beijos roubados e versos esquecidos. Foram noites,
tardes e manhãs de suspiros e corações partidos.
———
Ao redor da fonte da praça na frente de toda a pomposidade arquitetônica
existem quatro bancos. Um deles era o preferido do meu primeiro encanto. Sabe,
quando a rebeldia bate na porta, na mente e na alma de um ser humano no auge
dos seus 13, 14, 15 anos e alguém totalmente fora do seu círculo de amigos se
torna seu principal confidente, companhia preferida. Ele tinha um isqueiro azul
e um coração bondoso. E jamais deixou de ter um gosto musical de respeito.
Foi ele que me ensinou o que é ter insônia madrugada adentro pela
playlist que toca e foi ele que me ensinou o que é querer aplaudir o pôr do
sol. Todos os dias. Foi também ele que me ensinou o que é a ausência amarga, a
juventude relâmpago, a arte do desapego e a ter orgulho de ser quem eu sou. E
foi no nosso banco que tive de dizer até logo.
———
O simples ato de passar rapidamente pela frente do teatro — seja de
carro, de bicicleta ou caminhando rapidamente para não perder a hora — faz bem.
O olhar fica mais contente, o coração mais leve. Faça chuva ou faça sol, o
sorriso no canto da boca tende a aparecer por ali.
E foi num dia de chuva — na verdade, que começou com sol — que, depois
de algum tempo, o ritmo constante dos batimentos dentro do meu peito falhou.
Como numa quebra inesperada no ritmo de uma música, o moreno apareceu ali, no
canto do jardim, onde mal dá pra se ouvir a música que toca em toda a extensão
do teatro, e por onde passamos rapidamente, hoje em dia, levantando o olhar e
esquecendo dos problemas e do trânsito caótico.
Depois de anos afastada do interior do teatro, foi em sua companhia que
redescobri o interior da estrutura, e me redescobri também. Foram degraus e
degraus de textos, cafés e composições. Foram projetos iniciados, completados e
contemplados. Foram lances de escadas inteiras que me acomodaram para entender
o que é fazer planos concretos — e todo o medo e incerteza que os acompanha —
pra daqui a pouco.
Se um dia o teatro fora meu reino, agora ele se tornara o nosso quintal
(e pra lá dele, 'era uma noite que não tem mais fim’) e, conforme dizia uma das
músicas mais constantes nos fones de ouvido, aquele prédio era nosso centro de
gravidade. E se um dia eu se quer me entendia, agora eu passara a entender o
que é ter a companhia ideal para dividir uma plateia.
Até hoje tenho vontade de nos aplaudir em pé.
———
Na minha rotina de hoje, estar dividida entre dois lares me priva de
avistar o teatro da cidade na frequência que gosto. Mas felizmente o que é pra
ser, de fato acontece. E hoje, ainda que esquecendo de diversas nuances que
encontrei nos degraus escondidos das salas de dança, de música e dos
auditórios, me sinto no privilégio de saber, ainda, tudo que está por trás da
cortina.
Há não muito tempo atrás, me peguei duvidando do meu futuro — onde já se
viu vivermos nessa sociedade onde, aos 18 anos de idade, precisamos decidir o
que será de nós pelas próximas 80 primaveras? —, aonde eu estarei, o que farei,
quem serei. E foi no meio dessa inquietação interna intensa que, colocando meus
pés no chão novamente e obrigando-me a abrir meus olhos para o que eu estava
vivendo ali, naquele instante, fui questionada no que eu já estava fazendo.
Explico: existe todo esse mundo de pessoas incríveis que gostam de
compartilhar histórias. E ideias. E eu tive a honra de entrar pra esse universo
paralelo — onde os jovens não decidem todo o resto das suas vidas, eles
simplesmente vivem. Onde os adultos voltam a ser crianças. Onde se apaixonar
pela criatividade e inovação é tudo que está na moda. Onde, uma vez que você
faz parte, não há mais coragem para sair dali.
E foi no meio de todos esses talentos, ouvindo o que eles tinham e têm a
dizer que me vi justamente não-fazendo mais planos e inventando peripécias para
curto, médio e longo prazos, e simplesmente tentando decorar com a palma da mão
a textura dos degraus do canto do palco, da poltrona do camarim, dos ângulos
dos focos de luz.
Episódio 03. Agora só me falta sair — ou in my heart, I
can fly.
Hoje eu vi mais uma dessas clássicas fotografias de formatura e
conclusão de etapas das nossas vidas. Todos lindos, sorridentes. Em frente ao
teatro. Aí me questionei porque as minhas fotografias também não têm a mesma
construção como plano de fundo.
"Nada mais justo”, pensei — o que também me trouxe até aqui, de
certa forma. Nada mais justo já que, depois que concluí a etapa escolar da
minha vida, a primeira coisa que fiz foi me despedir da terrinha. Nada mais
justo que finalizar minha residência na cidade com um porta retrato daqueles
bonitos no lugar que sempre desenhou minha trajetória. Sempre fez parte da
trilha sonora, da paisagem que lembro no final do dia.
Mas pera lá. Quem sabe era pra ser exatamente assim. Afinal, uma coisa
que faz de mim quem eu sou aqui, hoje e agora, é a sede de mundo. A inquietação.
O apego pelo novo.
Eu não gosto muito de falar que é destino, que estava escrito, que as
coisas acontecem per se. Hoje, o retrato bonito que tenho é numa
paisagem que fez sentido na hora, com as pessoas que eu escolhi — ou não — pra
ser minha família. Pra chamar de lar. Pra voltar pra casa, vez ou outra. Quem
sabe esse retrato com o teatro ao fundo será o que será tirado daqui a algum
tempo, num devaneio maluco que a vida, um sonho ou outro alguém me aprontar.
Um devaneio: embora cada teatro tenha seu charme, nenhum será igual,
para mim, ao da terrinha. Assim como nenhuma narrativa será tão minha quanto a
minha.
Quem sabe, nesse retrato, eu esteja sozinha, ou acompanhada. Ele será
noite, ou no entardecer. Ou no amanhecer. Quem sabe eu estarei com franja reta
e olhos arregalados novamente, como da primeira vez que pisei ali. Quem sabe eu
o tire somente para não esquecer do local que já foi minha casa, meu palco, meu
reino, meu quintal. Quem sabe eu o retrate por ser minha paisagem diária. Nunca
se sabe.
Mas se há algo que estará certamente retratado é o quanto as escadarias
do teatro formaram quem eu sou hoje. Se tropeçar, há o corrimão para se
segurar. Se faltar energia, senta um pouco; a respiração é a principal aliada
da calma e do equilíbrio. Se faltar disciplina, relaxe — nada é como esperamos
ou planejamos. Se o coração doer, sempre há o próximo ano, o próximo
espetáculo. Se a mente hesitar, preste atenção nas notas que o pianista toca na
sala no final do corredor, ele está vivendo o momento de agora, e você deveria
fazer o mesmo. Se não der certo aqui, sempre haverão lances de escada para
alcançarmos novos andares. Se der certo, também pegue as escadas — o novo pode
ser muito divertido. Mas apesar de todos os pesares da preparação, a plateia vai
estar em pé. E é isso que nos faz sorrir no final do espetáculo.